Facebook

Cecília Meireles, A arte de ser feliz / L’arte di essere felici

A arte de ser feliz

 

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual,
para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas,
para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros
e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

 

Cecília Meireles

L’arte di essere felici

 

Ci fu un tempo in cui la mia finestra si apriva
su una città che sembrava fatta di gesso.
Vicino alla finestra c’era un piccolo giardino quasi secco.
Era un periodo di siccità, di terra sbriciolata,
e il giardino sembrava morto.
Ma tutte le mattine veniva un povero con un secchio,
e, in silenzio, gettava con la mano alcune gocce d’acqua sulle piante.
Non era un annaffiare: era una specie di aspersione rituale
perché il giardino non morisse.
E io guardavo le piante,
e l’uomo, e le gocce d’acqua che cadevano dalle sue dita magre
e il mio cuore era completamente felice.
A volte apro la finestra e trovo il gelsomino in fiore.
Altre volte trovo nuvole dense.
Vedo bambini che vanno a scuola.
Passeri saltellare sul muro.
Gatti che aprono e chiudono gli occhi, sognando i passeri.
Farfalle bianche, a due a due, come riflesse nello specchio dell’aria.
Calabroni che sembrano sempre personaggi di Lope de Vega.
A volte, un gallo canta.
A volte, un aereo passa.
Tutto è sicuro, al proprio posto, a compiere il proprio destino.
E io mi sento completamente felice.
Ma, quando parlo di queste piccole felicità sicure,
che sono davanti a ogni finestra, alcuni dicono che queste cose non esistono,
altri che esistono solo davanti alle mie finestre, e altri,
infine, che per vederle così devi imparare a guardare.

 

Traduzione di Emilio Capaccio

No widget added yet.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Follow Us

Get the latest posts delivered to your mailbox:

%d bloggers like this: