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Golgona Anghel, Sono venuta perché mi pagavano

Vim porque me pagavam,
e eu queria comprar o futuro a prestações.

Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos de Páscoa e pulseiras de lata.

A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quanto mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.

Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.

Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.

Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória.
O remoto rei dos corvos,
Edgar Allan Poe,
deixa cair do seu bico,
no centro de uma biblioteca,
os restos de uma musa.
Cansados de tanta melancolia,
os ratos montam à sua volta um circo.

«Annabel Lee», «Annabel Lee»,
guincham os bichos,
repartindo os ossos entre si.

Mostram os dentes,
esticam-lhe a pele.
Sabem que o poema
não tem outro precursor
a não ser a fome,
nem outro seguidor
a não ser o crime.

Tudo o que não é literatura aborrece-me –
queixava-se um checo muito conhecido.
As nossas vidas, aliás, deviam acontecer sempre no futuro,
onde, no fundo, sucedem todos os romances.
O nosso estilo teria a nitidez dos tratados científicos
e a força da descrição de uma batalha –
embora os críticos tentassem
transformar tudo isto num relatório criminal
ou no argumento para um filme de Domingo à tarde.
O Eduardo Prado Coelho era capaz de fazer isso.

Mas é preciso fugir ao máximo dos museus de cera,
perseguir os funcionários públicos do senso comum,
evitar que as mulheres feias tenham filhos.
Aliás, é urgente matar toda a gente que tem fome.
Por isso, não me venhas com xaropes e bancos alimentares.
Não me trates as doenças.
Não levantes a mão.
Vem, vem apenas,
come as you are
–  embora seja tarde.
Vem para esta sala de baile com portas cheias de musgo
e vozes molhadas em tabaco.
Vem passar uma noite nos seus cantos húmidos
onde coronéis e generais
levantavam as saias à história.

Já tirámos os cavalos,
já limpámos as trincheiras.

Vem ralar na minha pele arrepiada
a cor pálida da lua
como se fosse a casca de um limão.

Vem sem falta –
o palco está vazio,
a sala cheia.
Com o passo lento das derrotas,
um macaco vestido de Shakespeare
conduzir-te-á até ao último acto.

 

De Vim porque me pagavam, Lisboa, Maripoza Azual, 2011.

Sono venuta perché mi pagavano,
e volevo comprarmi a rate il futuro.

Sono venuta perché mi parlavano di cogliere ciliegie
o di armi di distruzione di massa.
Ma ho incontrato solo cuculi e pettegolezzi da fiera,
mitragliatrici di plastica, conigli pasquali e bracciali di latta.

A bordo, qualcuno ha parlato di giustizia
(no, non era Marx).
A bordo, parlavano anche di libertà.
Tanto più moriamo,
quanta più libertà abbiamo di ammazzare.
Ammazzavo perché eri vicino,
perché gli altri restavano nell’angolo del supermercato
a parlare, a dibattere la questione.

Con queste mani alzai la polvere
con cui ancora copro i nostri corpi.

Con queste gambe risalii dieci piani
per poterti così guardare in faccia.

C’è qualcuno che osa ancora parlare di posterità?
Io sola penso a come tornare a casa;
e che bello mi resta la speranza
mentre presento in diretta
l’autopsia della mia gloria.
Il remoto re dei corvi,
Edgar Allan Poe,
lascia cadere dal becco,
al centro di una biblioteca,
i resti di una musa.
Stanchi di tanta malinconia,
i ratti gli montano intorno un circo.

«Annabel Lee», «Annabel Lee»,
strillano le bestie,
spartendosi le ossa.

Mostrano i denti,
le tirano la pelle.
Sanno che la poesia
non ha altro precursore
oltre la fame,
né altro seguace
oltre il crimine.

Tutto ciò che non è letteratura mi annoia –
si lamentava un ceco molto conosciuto.
Le nostre vite, del resto, dovrebbero avvenire sempre nel futuro,
dove, in fondo, sono ambientati tutti i romanzi.
Il nostro stile avrebbe la lucidità dei trattati scientifici
e la forza delle descrizioni di una battaglia –
anche se i critici hanno tentato
di trasformare tutto questo in un resoconto criminale
o nell’argomento di un film della domenica sera.
Eduardo Prado Coelho era capace di farlo.

Ma bisogna sottrarsi al più grande dei musei delle cere,
perseguire i pubblici funzionari del senso comune,
evitare che le donne brutte abbiano figli.
Del resto, è urgente uccidere tutta la gente che ha fame.
Per questo, non mi venire con sciroppi e banchi alimentari.
Non mi curare i disturbi.
Non alzare la mano.
Vieni, vieni e basta,
come as you are
– anche se è tardi.
Vieni in questa sala da ballo con porte rivestite di muschio
e voci intrise di tabacco.
Vieni a passare una notte nei suoi angoli umidi
dove colonnelli e generali
alzavano alla Storia le sottane.

Stiamo già facendo uscire i cavalli,
stiamo già pulendo le trincee.

Lo vedo grattarmi la pelle irsuta
il pallido colore della luna
come fosse la buccia di un limone.

Vieni senza indugio –
il palco è vuoto,
la sala piena.
Con il passo lento delle sconfitte,
un macaco vestito da Shakespeare
ti condurrà fino all’ultimo atto.

 

Traduzione di Chiara De Luca

da Per le parole che si ostinano a restare. Poesia portoghese contemporanea. 
A cura di Nuno Júdice. Traduzione di Chiara De Luca. Edizioni Kolibris 2015.

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