Facebook

João Luís Barreto Guimarães, “Mediterraneo”, Edizioni Erasmo 2018

mediterraneo_cover

Sicília

Havia oliveiras
e figos. Messina fora tomada por
barcos cartagineses
como o café da manhã toma o
espaço do ar.
Havia damascos e amêndoas. Perto
em Siracusa
(usando o próprio corpo)
Arquimedes demonstrara como a água
é incompressível.
Dávamos as mãos e os pés.
Havia limões e ciprestes.
Não sei se vinhas.

 

 

 

 

Segunda parte da vida

Chegou ao fim
a recarga da caneta que me deste
depois de um dia de chuva a
lutar contra o poema. Do lado molhado da tarde
as gotas não querem descer —
ficam suspensas à espera que outras
se venham somar (é necessário um peso de
mágoa acumulada para
que uma gota de chuva se disponha
a ser lágrima). Procuro na nova recarga a
segunda parte da vida
erguendo-a para alumiar o que possa conter
(dentro da recarga: tinta
dentro da tinta: a cor negra). Que a
recarga seguinte traga sempre a solução
não posso dizer que
é líquido.

 

 

 

 

A caixa de correio de Deus

Um
rebanho de cristãos na cidade dos hebreus —
apenas queriam tocar as fendas
na pedra do Muro (enviar
pelo Deus deles um recado
ao nosso Deus). Logo à entrada da praça
do templo de Salomão
um soldado israelita buscara em nossa
posse a arma de onde pudéssemos extrair a
Morte ou
o Mal. Nada mais desnecessário. Não sabia o
militar que acautelava o divino que
ou esse Deus é o mesmo ou
não há (de todo)
Deus?

 

 

 

 

Para a construção da guerra

 

à Luljeta Lleshanaku

 

A
violência está latente no mais calmo
cidadão. Mesmo nesse que
acostado
parece segurar o muro (o estrépito
com que travou a fundo na fila de trânsito
o golpe com que bateu a porta
atrás de si) que
não te iluda a bonança com que vês
o nosso homem
passeando a própria sombra por uma
manhã de sol. Nele
tudo é insuspeito mas dentro
o sangue jorra. Deixa que uma mosca pouse
na comichão do nariz e vais ver o
que é capaz de fazer —
o assassino.

 

 

 

 

Balada dos maus pensamentos

As
perucas das senhoras em quimioterapia uma
vez por semana fogem para o
cabeleireiro. As donas
calvas
das perucas têm que ser pacientes —
sair de lenço à cabeça
(ocultando a alopecia)
passeando o infortúnio até a noite baixar.
Há que dar tempo às perucas. Mais que
nunca estão exaustas da doença prolongada
e não prescindem do ensejo de
lavar e pentear até
se sentirem refeitas. Há que apoiar as perucas
nesta fase complicada. Não é fácil
escutar as donas um dia inteiro a ter
tão maus pensamentos.

Sicilia

C’erano olivi
e fichi. Messina era stata presa dalle
navi cartaginesi
come il caffè del mattino si prende lo
spazio dell’aria.
C’erano albicocche e mandorle. Vicino
a Siracusa
(usando il proprio corpo)
Archimede aveva dimostrato che 1’acqua
è incomprimibile.
Allungavamo le mani e i piedi.
C’erano limoni e cipressi.
Non so se vigne.

 

 

 

 

Seconda parte della vita

Si è esaurita
la ricarica delia penna che mi hai regalato
dopo un giorno di pioggia
a lottare contro il poema. Dal lato bagnato della sera
le gocce non vogliono scendere —
rimangono sospese in attesa che altre
si sommino (è necessario un carico di
pena accumulata per far sì
che una goccia di pioggia si disponga
a diventare lacrima). Cerco nella nuova ricarica la
seconda parte della vita
innalzandola per illuminare ciò che potrà contenere
(dentro la ricarica: inchiostro
dentro l’inchiostro: il colore nero). Che la
prossima ricarica porti sempre la soluzione
non posso dirlo che
è liquida.

 

 

 

 

La casella della posta di Dio

Un
gregge di cristiani nella città degli ebrei —
volevano solo toccare le fessure
nella pietra del Muro (inviare
tramite il loro Dio un messaggio
al nostro Dio). All’ingresso della piazza
del tempio di Salomone
un soldato israeliano aveva cercato tra le nostre cose
l’arma da dove potessimo estrarre la
Morte o
il Male. Niente di più inutile. Non sapeva il
militare che proteggeva il divino che
o quel Dio è lo stesso o
non esiste (affatto)
Dio?

 

 

 

 

Per la costruzione della guerra

 

a Luljeta Lleshanaku

 

La
violenza è latente nel più pacifico
cittadino. Anche in colui che
appoggiato
sembra sorreggere il muro (lo strepito
con il quale frenò a fondo in fila nel traffico
il colpo con cui sbatté lo sportello
dietro a sé) che
non ti illuda la bonaccia che vedi
nel nostro uomo
mentre porta a spasso la propria ombra
in un mattino di sole. In lui
tutto è insospettabile però dentro
il sangue ribolle. Lascia che una mosca si posi
nel prurito del naso e vedrai cosa
è capace di fare —
l’assassino.

 

 

 

 

Ballata dei cattivi pensieri

Le
parrucche delle signore in chemioterapia una
volta a settimana scappano per andare dal
parrucchiere. Le padrone
calve
delle parrucche dovranno essere pazienti –
uscire con il fazzoletto in testa
(occultando l’alopecia)
portando a spasso l’infortunio fino al calar della sera.
Bisogna dar tempo alle parrucche. Più che
mai sono esaurite dalla prolungata malattia
e non si lasciano sfuggire l’opportunità di
essere lavate e pettinate finché
non si sentiranno rigenerate. Bisogna sostenere le parrucche
in questa fase complicata. Non è semplice
ascoltare per un’intera giornata le padrone con
tanti cattivi pensieri.

 

João Luís Barreto Guimarães, da Mediterraneo, Edizioni Erasmo 2018.
Traduzione di António Fournier e Alessandro Granata Seixas

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES Nasceu no Porto, Portugal, a 3 de Junho de 1967. Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade. Publicou 10 livros de poesia, os primeiros sete reunidos em Poesia Reunida (2011), a que se seguiram Você está Aqui (2013), Mediterrâneo (2016), que recebeu o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa e foi publicado em Espanha/México e em Itália, e Nómada (2018). Em 2019 foi publicada a antologia O Tempo Avança por Sílabas que reúne 100 poemas escolhidos pelo autor dos 10 livros de originais que publicou até ao momento.

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES è nato a Porto il 3 giugno del 1967. Divide il suo tempo tra Leça da Palmeira e Venade. Ha pubblicato dieci libri di poesia, i primi sette riuniti in Poesia Reunida (2011), cui sono seguiti Você está Aqui (2013), Mediterrâneo (2016), che ha ricevuto il Premio nazionale di poesia António Ramos Rosa ed è stato pubblicato in Spagna/Messico e in Italia, e Nómada (2018). Nel 2019 ha pubblicato l’antologia O Tempo Avança por Sílabas [Il tempo avanza in sillabe], che riunisce cento poesie scelte dall’autore dalle edizioni originarie dei dieci libri pubblicati fino a questo momento.

No widget added yet.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Follow Us

Get the latest posts delivered to your mailbox:

%d bloggers like this: