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João Luís Barreto Guimarães, Nomáda/Nomade

 

Prelúdio

Transporto comigo este dia como
a sola do sapato transporta uma
pastilha elástica. O poema vai sem medo
(dispõe-se sobre papel)
deixa ficar escrito a negro o
que tinha para dizer
(perseguindo sem pereza o que
ainda não existe). E a que cheira o novo dia?
Por ora a batata frita –
pequeno prodígio um poema: a si
cabe decidir se enfeita
(ou não) o
real. Porque virá sempre alguém em busca
de imagens precisas
(recusando o artifício que adorna a beleza)
perguntando pela verdade que existe
nas coisas comuns.

 

 

 

 

A temperatura do medo

Willis Tower
 103º andar
412 metros de altura

No
topo
do arranha-céus (numa varanda de vidro)
por um instante senti
o que poderão ter sentido
os prisioneiros do fogo no alto
das torres gémeas. Mas só
o primeiro
segundo. Olhando a rua em baixo
(sobre um deck transparente)
senti a pele a ser rasgada pelo
súbito
calafrio de uma queda iminente –
a última viagem
de Ícaro. É só do que sei falar:
quão gelada é a vertigem
aquele primeiro
vazio.

 

 

 

 

As paredes em falta

Nos
prédios bombardeados (por exemplo: nos Balcãs)
é fácil de figurar as celas
em que vivemos. Blocos altos sem fachada
(desde os dias da guerra)
tornam-no mais evidente: quartos cúbicos
exíguos
aos quais falta uma parede –
essa que dá para a fuga
que mostra a liberdade. Mas isso é
nos sítios
da guerra. Nos lugares em paz
os banqueiros (e os cobradores de impostos)
brincam com os moradores
(privando-os de quatro paredes!)
como quem brinca às casinhas com
uma casa de bonecas
dessas que há nos museus ricos do Norte
da Europa.

 

 

 

 

O cheiro do corredor

O
corredor do hospital onde se aguarda a noticia é
escuro
e abafado. As cadeiras de plástico (polidas e
pacientes) aceitam familiares com um
único objectivo: «positivo
ou negativo?» O medo bebe um cigarro
(fuma o terceiro café)
julgando furtar-se ao cheiro que habita o
corredor –
um cheiro iniludível que invade a memória
acerbando a angústia que antecede
o veredicto: «negativo
ou positivo?» As mãos tecem litanias
algemadas a um terço (a esperança é o nervo
quando a crença é o músculo) e o
cheiro do corredor fica colado à resposta que
chega pelo fim do dia devolvendo
ordem ao mundo: «Negativo.»
«Negativo?»
«É negativo.»

 

 

 

 

Nocturno

Pelas duas da manhã o gato leva-me
à cozinha para
me dar de comer. Hoje à noite atrasa a hora –
é esta a noite ideal para
a ilusão dos amantes (o que acontecer nessa hora
jamais
aconteceu). Acordado o
pensamento é a minha geografia –
o que fazer às imagens que nenhum poema
reclamou (a
gota que cai da torneira é sempre
a mesma gota? O
mar que um búzio contém é
o da praia onde estava?) Às duas
torna a ser uma e
o gato leva-me ao quarto
(se a noite não traz respostas é
sempre o silêncio quem fala) e
um gato que escreve com as patas tem decerto
algo a dizer.

 

 

 

 

18ème arrondissement

 

a Nuno Júdice

Os
escultores de Montmartre têm que ter
estudado (a fundo)
anatomia para poderem esculpir belas
imagens sagradas. Ou
terem errado ao acaso (de lupanar
em
lupanar) até não restarem dúvidas
(ao mais infímo detalhe) de
tão casta
anatomia. Não consta que
alguma vez monjas se tenham disposto
a posar
(assim desnudas) para que
coxas e seios saíssem das mãos
dos escultores com tamanha
exactidão. Concordará o leitor quando digo que
as moças que assim se davam
à arte tinham qualquer
coisa de santas.

 

 

 

 

Acerca da poesia portuguesa contemporânea

A beleza
desperdiçada quando os museus estão fechados –
à noite
não há olhares percorrendo os corredores
nada mais resta às meninas
(na solidão das molduras) do
que acirrar-se
entre si. E como sabem ser cruéis (as
novas zoando as velhas
as magras zoando as fartas) umas
e outras
rendidas às mulheres (?!) nas telas
abstractas. Ávidas de atenção
vão dirimindo vaidades compondo-se
de hora a hora
(na ilusão das molduras) para disputar
a atenção néscia do
guarda de turno.

 

 

 

 

Os que ficam em segundo

A taça
do vencedor jaz esquecida a um canto.
Já ninguém olha por ela. Não há imagem maior
de abandono e perda do
que a dada pelo tempo (uma pátina de pó e
de glória
oxidada que a memória agasalhou
num cachecol de
ferrugem). Eu
gosto dos derrotados. De como se obrigam a ver
os foguetes da vitória
(regressando ao seu futuro com olhos
plenos de água) aprecio
a dignidade com que vão pousando os braços
(é deles a condição de quem é
sempre o segundo)
gosto de quem não tem sorte de
quem quase conseguiu –
hoje sinto-me um deles.

 

 

 

 

O gabinete do director

Na sala
do director não há nada na parede. Apenas
existe um prego onde pode figurar
uma imagem de Cristo ou
o rosto
do ditador. A parede não tem nada. Apena
se vê uma aranha a confirmar
a sentença: a
cada parede uma teia
(cada teia: uma prisão). É uma parede despida.
Apenas existe uma fenda por
onde a sala cede –
a sala que parecia robusta. A parede
está vazia.
Apenas se vê uma sombra
uma longa sombra escura. Significa
que ainda há luz.

 

 

 

 

Vida interior

 

num canal de Amesterdão

Há sempre uma história maior por trás
da que conhecemos –
ficava a vê-la sozinha no quarto aceso da
frente (ela e
a epiderme do prédio já pediam
um restauro). A vida
(vista de fora)
convida a imaginar a arqueologia das perdas
(silêncios que se gritaram
gestos que se contiveram) tudo
o que de imaterial o
tempo
não conservou. Ficava a vê-la sozinha naquele
teatro mudo
guardando um casaco de homem aos ombros
de uma cruzeta (como
quem sonha que esconde um amante
no armário).

João Luís Barreto Guimarães

 

Preludio

Mi porto questo giorno come
la tomaia di una scarpa porta un
gewing gum. La poesia va intrepida
(si dispone sulla carta)
lascia nero su bianco quel
che aveva da dire
(ambendo senza pigrizia a quel che
ancora non c’è). E il nuovo giorno di che odora?
Di patatine fritte per ora –
piccolo prodigio una poesia: a te
spetta decidere se adorna
(o no) il
reale. Verrà sempre quello che cerca
immagini esatte
(rifiutando l’artificio che orna la bellezza)
chiedendo della verità che esiste
nelle cose comuni.

 

 

 

 

La temperatura della paura

Willis Tower
103º piano
412 metri d’altezza

Al
vertice
dei grattacieli (in una veranda in vetro)
per un istante sentii
quel che forse hanno sentito
i prigionieri del fuoco in cima
alle torri gemelle. Ma solo
il primo
secondo. Guardando la via laggiù
(su un deck trasparente)
sentii la pelle lacerata dal
repentino
brivido di una caduta imminente –
l’ultimo viaggio
di Icaro. E solo questo so dire:
com’è gelida la vertigine
quel primo
vuoto.

 

 

 

 

I muri mancanti

Negli
edifici bombardati (tipo: nei Balcani)
è facile figurarsi le celle
dove viviamo. Alti blocchi senza facciata
(dai giorni della guerra)
lo mettono in luce: stanze cubiche
anguste
cui manca una parete –
quella che dà sulla fuga
che mostra la libertà. Ma questo è
nei luoghi
di guerra. Nei luoghi in pace
i banchieri (e gli esattori delle tasse)
giocano con gli abitanti
(privandoli di quattro pareti!)
come chi gioca agli sposini con
una casa di bambole
come ne vedi nei musei ricchi del Nord
Europa.

 

 

 

 

L’odore del corridoio

Il
corridoio dell’ospedale dove aspetti la notizia è
buio
e asfissiante. Le sedie di plastica (pulite e
pazienti) accettano familiari con un
solo obiettivo: «positivo
o negativo»? La paura beve una paglia
(fuma il terzo caffè)
pensando di sottrarsi all’odore che abita il
corridoio –
un odore chiaro che invade la memoria
inasprendo l’angoscia che precede
il verdetto: «negativo
o positivo?» Le mani filano litanie
incatenate a un terzo (la speranza è il nervo
quando è il muscolo la fede) e
l’odore del corridoio aderisce al responso che
arriva a fine giornata e riporta
ordine al mondo: «Negativo».
«Negativo»?
«È negativo».

 

 

 

 

Notturno

Alle due del mattino il gatto mi porta
in cucina per
darmi da mangiare. Oggi torna l’ora solare –
è questa la notte ideale
per l’illusione degli amanti (quel che avverà a quest’ora
non sarà mai
avvenuto). Sveglio il
pensiero è la mia geografia –
che fare d’immagini che nessuna poesia
reclamò (la
goccia che cade dal rubinetto è sempre
la stessa? Il
mare che una conchiglia contiene è
quello della spiaggia da cui proviene?) Le due
tornano a essere una e
il gatto mi guida al letto
(se la notte non porta consiglio è
sempre il silenzio che parla) e
un gatto che scrive con le zampe ha di certo
qualche cosa da dire.

 

 

 

 

18ème arrondissement

 

a Nuno Júdice

Gli
scultori di Montmartre devono avere
studiato (a fondo)
anatomia per poter scolpire belle
immagini sacre. Oppure
vagato a caso (di lupanare
in
lupanare) fino a non aver più dubbi
(al più minuto dettaglio) di
una così casta
anatomia. Non risulta che
a volte le suore si siano prestate
a posare
(così nude) perché
cosce e seni uscissero dalle mani
degli scultori con precisione
tale. Concorderai lettore quando dico che
le ragazze che così si davano
all’arte avevano qualche
cosa delle sante.

 

 

 

 

A proposito della poesia portoghese contemporanea

La bellezza
dissipata quando i morti sono chiusi –
di notte
niente sguardi che percorrono i corridoi
nulla più resta alle ragazze
(nella solitudine delle cornici) di
cui eccitarsi
dentro di sé. Poiché sanno essere crudeli (le
giovani schernendo le vecchie
le magre schernendo le grasse) le une
e le altre
arrese alle donne (?!) nelle tele
astratte. Avide di attenzioni
dirimono vanità: si accordano
di ora in ora
(nell’illusione di cornici) per contrastare
la stolta attenzione della
guardia di turno.

 

 

 

 

Quelli che sono secondi

La coppa
del vincitore giace scordata in un canto.
Più nessuno la guarda. Non c’è maggiore immagine
di perdita e abandono di
quella creata dal tempo (patina di polvere e
di gloria
ossidata che la memoria avvolse
in una sciarpa di
ruggine). Mi
piacciono gli sconfitti. Come si forzano a vedere
i razzi della vittoria
(tornando al loro futuro con gli occhi
pieni di acqua) apprezzo
la dignità con cui posano le braccia
(la loro è la condizione di chi è
sempre il secondo)
mi piace chi non ha fortuna chi
ce l’aveva quasi fatta–
oggi mi sento uno di loro.

 

 

 

 

L’ufficio del direttore

Nella stanza
del direttore non c’è niente alla parete. Solo
un chiodo esiste dove può figurare
una immagine del Cristo o
il volto
del dittatore. La parete non ha nulla. Solo
un ragno si vede che avalla
la sentenza: a
ogni parete una tela
(ogni tela: una prigione). È una parete spoglia.
Esiste solo una crepa attraverso
cui cede la stanza –
la stanza che pareva robusta. La parete
è vuota.
Solo un’ombra si vede
una lunga ombra scura. Significa
che c’è luce ancora.

 

 

 

 

Vita interiore

 

in un canale di Amsterdam

C’è sempre una storia più grande dietro
quella che conosciamo –
la guardavo: sola nella stanza accesa di
fronte (lei e
la pelle del palazzo chiedevano già
un restauro). La vita
(vista da fuori)
invita a figurarsi l’archeologia delle perdite
(silenzi che si gridarono
gesti che si contennero) tutto
quel che d’immateriale il
tempo
non ha preservato. La guardavo lì sola in quel
teatro muto
teneva un cappotto da uomo sulle spalle
di una stampella (come
chi sogna di celare un amante
dentro l’armadio).

Traduzione di Chiara De Luca

João Luís Barreto Guimarães, da Nomáda, Quetzal 2018

João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto, Portugal, a 3 de Junho de 1967. Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade. Publicou 10 livros de poesia, os primeiros sete reunidos em Poesia Reunida (2011), a que se seguiram Você está Aqui (2013), Mediterrâneo (2016), que recebeu o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa e foi publicado em Espanha/México e em Itália, e Nómada (2018). Em 2019 foi publicada a antologia O Tempo Avança por Sílabas que reúne 100 poemas escolhidos pelo autor dos 10 livros de originais que publicou até ao momento.

João Luís Barreto Guimarães è nato a Porto il 3 giugno del 1967. Divide il suo tempo tra Leça da Palmeira e Venade. Ha pubblicato dieci libri di poesia, i primi sette riuniti in Poesia Reunida (2011), cui sono seguiti Você está Aqui (2013), Mediterrâneo (2016), che ha ricevuto il Premio nazionale di poesia António Ramos Rosa ed è stato pubblicato in Spagna/Messico e in Italia, e Nómada (2018). Nel 2019 ha pubblicato l’antologia O Tempo Avança por Sílabas [Il tempo avanza in sillabe], che riunisce cento poesie scelte dall’autore dalle edizioni originarie dei dieci libri pubblicati fino a questo momento.

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