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Jorge Reis-Sá, “Istituto di antropologia”

 

A Salvação do Mundo

Não existe num verso nada de útil à salvação do mundo.
O poema não tem mais do que uma casa, paredes caiadas
de branco, os azulejos a rebaterem o sol contra a sombra,
dizendo-lhe o seu lugar. O poema é meu pai em sofrimento

na cama do hospital, estas mãos inúteis que lhe afagam
a dor, circunstância de lugar, reduz à sombra o sol. Casa

essencial, a do poema, memória e salvação de um homem.
O mundo é útil de poesia. Todos os versos são possíveis.

 

 

 

 

 

Senta-te aí

A cadeira está vazia, um corpo ausente não aquece
a madeira que lhe dá forma. E não ouço o recado
que me quiseste dar, nem a tua voz forte que grita
meninos na hora de acordar. Ouço o teu abraço, no
corredor, em Gaia, e os olhos molhados pela inusitada

despedida. O sol foge. Mas o crepúsculo desenha
a sombra que tenho colada aos pés. Ou o espelho,
coberto com a tua face. Pai: a minha sombra és tu.

 

 

 

A Morte Continuada

Para o meu irmão Pedro

Não te permitiu a idade consciência da morte.
Foste-a aprendendo à medida que os anos passavam
pela repetida ausência ao chamamento do seu nome.
De nada valia dizer pai e pedir a ceia na escuridão
da madrugada. Já não existia quem se levantasse,
aquecesse o teu e o seu leite, to levasse à cama,
o tomasse na cozinha com algum pão que teria

sobrado do jantar. Eras pequeno demais para
a ausência, quando morreu. Foste crescendo,
sentindo que a casa tinha ficado para sempre
vazia, nunca mais surgiria para te levar, de manhã,

a infância até à escola. E doeu mais essa morte
continuada do que o dia em que desapareceu.
Porque apresentada dia-a-dia, sem a recordação
do motivo, como se pudesses viver na esperança
de ouvir já vou ao teu pedido, noite luminosa
na partilha da vossa ceia. Entras em casa, és já

um homem. Rodas a chave da porta, o crepúsculo
desenha linhas do horizonte na janela da cozinha.
E pensas se será possível ele anuir apenas mais
uma vez ao teu pedido na madrugada que se adivinha.

 

 

 

A Definição do Amor [2]

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.

Eugénio de Andrade

Escrevi tantas vezes a palavra pai que lhe gastei todo
o significado. Quando agora escrevo pai, já não sinto
as barbas a roçarem a minha mão macia, as rugas
que os anos transportaram para a sua face, os óculos,
os dedos, a voz com que me chamava filho como se lhe

escrevesse pai. Gastei-a em maus poemas e em maus
romances, com a Foz ao fundo e a mãe segurando-me
o corpo pequeno sobre o muro que ladeava a praia.

Gastei-a definindo-lhe as letras, alargando-lhe
o significado. Gastei-a tirando-lhe a dízima
infinita e não periódica e colocando, depois da
letra que se salvou, o mar fechado no seu interior.

Gastei-a a tentar definir o amor.

 

 

 

 

Quintal

Eu tinha jurado esquecer os teus gestos no meio dos meus
versos, bem sabes. Tinha-me dito que era altura de falar
de borboletas; da Joana, a pequena que late no quintal
da avó. Mas aqui estás, como todos os dias, às vezes uma
curta recordação, outras um dardo no sítio onde dizem que

tenho um coração. Hoje foi um dia tão triste. O teu nome
na placa de prata que o senhor Albino da ourivesaria
fez há mais de quinze anos. Era necessário chamar aos
carros o nome do seu dono e tu, diligente, escreveste
no Rover o teu, gravado em prata e verdade. Estás aqui

porque hoje vendemos o teu carro. Desapareceu mais
um bocado de ti e dói tanto. Já não bastava o corpo e a
memória com os anos – pai, se um dia te esquecer pela
doença, perdoar-me-ás? – também as coisas que te davam
circunstância se vão gastando uma a uma. A roupa, no
armário da entrada, que a mãe, quase em silêncio, disse ter
dado porque os vermes que tragam a tua carne inundaram
o tecido que tantos anos a protegeu. O carro. Vendido,

desaparecendo na curva da estrada. Olhei-o uma última
vez quando o tirei da garagem e chorei. Eras tu quem eu
perdia uma vez mais. Sobrou o bocado de prata onde jaz
o teu nome e que guardo como um filho órfão guarda

a memória de um pai. Com o teu corpo tragado debaixo
do mármore e do nosso choro, a mãe comprou um pequeno
baú para te guardar. Tem um maço de tabaco, o último que
fumaste e que te acabou por matar; tem os teus óculos; tem
a tua vida em ponto pequeno. Falta a tua aliança que trago

no dedo e que um dia lá colocarei. (Pai, se um
dia te esquecer pela doença, perdoar-me-ás?)

 

 

 

 

Cemitério do Prado do Repouso [1]

Dois candeeiros, um aparador, o saco com as coisas
mais íntimas no banco da frente. Chamam-se os homens
das mudanças e pede-se, clemente, que mude com os móveis
a nossa vida. Por favor, senhor Joaquim, pode-me mudar esta
tristeza que me inunda? Mas o senhor Joaquim encolhe os
ombros, ajusta a madeira na carrinha para que não risque
e diz, meu caro, mudar essas coisas só se for num camião
tir e nós, aqui na Joaquim Ribeiro Unipessoal, não temos disso.

 

 

 

 

 

Dinner at Eight

Para o meu pai

Já não há melancolia possível. Acabou no dia em que esta
música chegou nas asas de uma borboleta e eu, lembrando
personagens de um romance, Fernando, Augusto, António,
me soube amargo pelo grito de um filho. Também sou filho.
E no entanto não tenho um pai com quem gritar.

Esta música faz-me chorar. E eu não tenho como repeti-lo,
falar do nosso jantar – lembras-te, pai, do arroz de tomate,
bem solto, que a mãe fazia com os panados? a mãe nunca
mais cozinhou – e poder finalmente dizer-te a verdade:
morreste como uma árvore e eu fiquei sob o sol. Dantes

eras tu o maior tronco e eu não tinha como crescer. Nem
vou dizer-te – como, com dezassete anos? – o quanto te
quis insultar para te julgar vivo. Por isso este poema
quando ouço este filho a acertar contas com um pai –
coloca os teus punhos bem erguidos, pai, e deixa-me lutar
contigo uma última vez o grito de quem te quer vivo se

não mais para te dizer como foi importante morreres.
Disse-o, pai. E penso: como posso ser feliz com a vida
que tenho? Como? O Guilherme. E tu aqui, ele não mais
do que uma mentira. Raramente penso nisso, digo-te.
Mas esta música, pai. Este lamento. Quero lembrar
o arroz de tomate do nosso jantar e pensar que, mesmo
vivo, possível que fosse envelhecer contigo, mesmo
assim, pai, com o arroz de tomate e sem o Guilherme
eu seria tão feliz como hoje. E não consigo.

 

La salvezza del mondo

Non esiste in un verso nulla di utile alla salvezza del mondo.
La poesia non possiede altro che una casa, pareti dipinte
di bianco, le piastrelle per respingere il Sole contro l’ombra,
indicandogli il suo posto. La poesia è mio padre in sofferenza

nel letto d’ospedale, queste mano inutili che gli carezzano
il dolore, circostanza di luogo, riduce a ombra il Sole. Casa

essenziale, quella della poesia, memoria e salvezza di un uomo.
Il mondo è strumento di poesia. Tutti i versi sono possibili.

 

 

 

 

 

Siediti lì

La sedia è vuota, un corpo assente non scalda
il legno che le dà forma. E non sento il messaggio
che mi chiedesti di dare, né la tua voce forte che grida
ragazzi all’ora del risveglio. Sento il tuo abbraccio, in
corridoio, in Gaia, e gli occhi inumiditi dall’insolito

congedo. Il Sole fugge. Ma il crepuscolo disegna
l’ombra che ho incollata ai piedi. O lo specchio,
coperto dal tuo volto. Padre: la mia ombra sei tu.

 

 

 

La morte prolungata

Per mio fratello Pedro

Non ti concesse l’età coscienza della morte.
La apprendevi a mano a mano che gli anni passavano
dalla ripetuta assenza al chiamare il suo nome.
A nulla serviva dire papà e chiedere la cena al buio
dell’alba. Non esisteva più chi si alzasse,
scaldasse il tuo e il suo latte, te lo portasse a letto,
o prendesse in cucina un po’ di pane che aveva

conservato dalla cena. Eri troppo piccolo per
l’assenza, quando morì. Crescevi,
sentendo che la casa era rimasta per sempre
vuota, mai più si sarebbe alzato per portarti, al mattino,

l’infanzia fino a scuola. E mi duole questa morte
prolungata più del giorno in cui lui scomparve.
Perché esibita giorno dopo giorno, senza ricordo
del motivo, come se tu potessi vivere nella speranza
di sentire vengo alla tua richiesta, notte luminosa
nella spartizione della vostra cena. Entra in casa, sei già

un uomo. Gira la chiave della porta, il crepuscolo
disegna linee dell’orizzonte sulla finestra della cucina.
E pensi se sarà possibile che lui annuisca anche solo
una volta alla tua richiesta nell’alba che si preannuncia.

 

 

 

La definizione dell’amore [2]

Abbiamo già perso parole per la strada, amore mio
e ciò che ci resta non basta
a scacciare il freddo di quattro pareti.

Eugénio de Andrade

Scrissi così tante volte la parola padre da sprecarne tutto
il significato. Adesso quando scrivo padre, non sento più
la barba a sfiorarmi la mano morbida, le rughe
che gli anni gli trasposero sul volto, gli occhiali,
le dita, la voce con cui mi chiamava figlio come se gli

scrivessi padre. Lo sprecai in brutte poesie e in brutti
romanzi, con la Foce in fondo e la mamma che mi teneva
il corpo piccolo sul muro che circondava la spiaggia.

Lo sprecai definendogli le lettere, ampliandogli
il significato. Lo sprecai nel sottrargli la decina
infinita e non periodica e collocando, dopo la
lettera che si salvò, il mare chiuso al suo interno.

Lo sprecai tentando di definire l’amore.

 

 

 

 

Cortile

Avevo giurato di scordare i tuoi gesti in mezzo ai miei
versi, lo sai bene. Mi ero detto che era ora di parlare
di farfalle; di Joana, la piccola che si nasconde nell’orto
della nonna. Ma sei qui, come tutti i giorni, a volte un
breve ricordo, altre un dardo nel punto in cui dicono che

io abbia un cuore. Oggi è stato un giorno tanto triste. Il tuo nome
sulla targa d’argento che il signor Albino dell’oreficeria
fece più di quindici anni fa. Era necessario dare alle
auto il nome del proprietario e tu, diligente, scrivesti
sulla Rover il tuo, inciso in argento e verità. Sei qui

perché oggi abbiamo venduto la tua auto. È sparito un altro
pezzo di te e fa tanto male. Non bastavano il corpo e la
memoria con gli anni – papà, se un giorno ti scorderò per il
dolore, mi perdonerai? – anche le cose che ti davano
uno status si vanno perdendo a una a una. Gli abiti, dentro
l’armadio dell’ingresso, che mamma, quasi in silenzio, disse
d’aver dato via perché i vermi che ti smangiano la carne inondarono
il tessuto che per anni la protesse. L’auto. Venduta,

svaniva nella curva della strada. La vidi l’ultima volta
quando la tirai fuori dal garage e piansi. Era te che stavo
perdendo un’altra volta. Restò il pezzo d’argento dove giace
il tuo nome e che custodisco come un figlio orfano custodisce

la memoria di un padre. Col tuo corpo rosicchiato sotto
il marmo e il nostro pianto, mamma ha comprato un piccolo
baule per custodirti. C’è un pacchetto di tabacco, l’ultimo che
fumasti e che finì per ucciderti; i tuoi occhiali; c’è
la tua vita in miniatura. Manca la tua fede che porto

al dito e che un giorno metterò là. (Papà, se un
giorno ti scorderò per il dolore, mi perdonerai?)

 

 

 

 

Cimitero di Prado do Repouso [1]

Due lampade, una credenza, la borsa con gli effetti
personali sul sedile anteriore. Si chiamano gli uomini
dei traslochi e si chiede loro, mitemente, che coi mobili traslochino
la nostra vita. Per favore, signor Joaquim, potrebbe traslocarmi
questa tristezza che m’inonda? Ma il signor Joaquim scuote le
spalle, sistema il legno nel furgoncino per non rischiare
e dice, caro mio, per traslocare queste cose ci vorrebbe un camion
e noi, qui alla ditta individuale Joaquim Ribeiro, non ne abbiamo.

 

 

 

 

 

Dinner at Eight

Per mio padre

Non c’è più malinconia possibile. Finì il giorno in cui questa
musica arrivò sulle ali di una farfalla e io, ricordando i
personaggi di un romanzo, Fernando, Augusto, António,
mi seppi amaro dal grido di un figlio. Anch’io sono figlio.
Eppure non ho un padre con cui gridare.

Questa musica mi fa piangere. E non so come ripeterlo,
parlare della nostra cena – ricordi, papà, il riso al pomodoro,
ben sciolto, che mamma faceva con l’impanato? Mamma non ha più
cucinato – e poterti finalmente dire la verità:
moristi come un albero e io rimasi sotto il Sole. Un tempo

eri tu il tronco portante e io non sapevo come crescere. Né
ti dirò – come, a diciassette anni? – quanto avrei voluto
insultarti per riportarti in vita. Ecco perché questa poesia
quando sento questo figlio fare i conti con un padre –
alza bene i pugni, papà, e lasciami lottare con te
un’ultima volta il grido di chi ti vuole vivo se

non altro per dirti quanto fu importante la tua morte.
Lo dissi, papà. E penso: come posso essere felice con la vita
che ho? Come? Guilherme. E tu qui, lui non più
che una menzogna. Raramente ci penso, ti dico.
Ma questa musica, papà. Questo lamento. Voglio ricordare
il riso al pomodoro della nostra cena e pensare che, anche
se sono vivo, sia possibile invecchiare con te, anche
così, papà, con il riso al pomodoro e senza Guilherme
sarei tanto felice come oggi. E non ci riesco.

Jorge Reis-Sá, Istituto di antropologia, Edizioni Kolibris 2018

 

Il giorno 2 aprile 2019, alle 16:00, Jorge Reis-Sá presenterà Istituto di antropologia (Kolibris 2018) nella Sala Convegni del Dipartimento di Lingue, Letterature e Culture moderne di Bologna, LILEC, dell’università di Bologna, in Via Cartoleria 5.

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