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Manuel Alegre, Rosas vermelhas/Rose rosse Featured

A cura di Chiara De Luca

©Foto Luiz Carvalho

Forse è necessario rinunciare alla felicità per conquistare la felicità. Io ero in prigione, nel maggio del 1963. Avevo imparato la solitudine. Avevo imparato che se anche urli con tutte le tue forze quando ti svegli in piena notte con un grido nella testa e un ratto (o forse la paura?) che ti rosicchia lo stomaco, nessuno, nessuno verrà a riportare la pace dentro di te. Ed è proprio quello il momento in cui si scopre se le travi maestre di un uomo resisteranno. Perché solo la tua voce, amico, risponderà al tuo appello torturato nella notte. E in quell’ora (la più solitaria delle ore) se riuscirai a stringere i denti, a sferrare un pugno alla parete, ad accenderti una sigaretta, se riuscirai a vincere quell’incontro con la solitudine nel punto più profondo di te stesso, con che gioia, con che strana gioia, il mattino seguente risponderai:
– Buon giorno!

© Kevin Hill

ROSAS VERMELHAS

Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.
E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia doze de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio
cheio de ritos e ternura.
Nesse tempo o sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do Mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada
tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte de minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.
E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-me e então exclamava:
– Mãe!
e logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:
– Mãe!
e logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia doze de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa?
Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como
direi? – acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela ao lado, alguém,
batendo com os dedos na parede, me dissesse:
– Coragem!
eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça. (Onde a voz que mandava embora os fantasmas?)
E era terrível essa manhã sem amanhã, essa realidade
branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos.
Mesmo que, na cela ao lado, alguém, batendo com os
dedos na parede, me dissesse:
– Bom dia!
era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.
Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias de um homem que podia responder:
– Bom dia,
de cabeça erguida, era terrível acordar no mês de Maio com a certeza de que no dia doze a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.
Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato (talvez o medo?) roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves-mestras de um homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria,
com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:
– Bom dia!,
mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa
estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.
É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas
poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?
Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do país. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:
– Mãe!
a voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra
eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto.
No dia doze, não acordei com o beijo de minha mãe.

Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? – às dez e um quarto, que foi a hora em que nasci), o carcereiro entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, de uma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.

Manuel Alegre, da Praça da Canção, Dom Quixote, Lisboa 2015.

ROSE ROSSE

Sono nato a maggio, il mese delle rose, si dice. Forse è per questo che ho fatto della rosa il mio fiore, un simbolo, una sorta di bandiera per me stesso.
Tutti gli anni, quando arrivava il mese di maggio, o più esattamente il giorno dodici di maggio, alle dieci e un quarto del mattino (che è l’ora in cui sono nato), mia madre apriva la porta della mia stanza, mi svegliava con un bacio e sistemava in un vaso un mazzo di rose rosse, senza parole. Solo le sue mani, componendo le rose, officiavano in quello strano silenzio pieno di riti e tenerezza.
A quel tempo il sole nasceva esattamente nella mia stanza. Io aprivo la finestra. Di fronte c’era la piazza, il vecchio albero della piazza degli zingari. Quando arrivava il mese di maggio, aprivo la finestra e m’inebriavo di quell’odore di fuochi, carri e zingari. E respiravo l’aria di tutti i viaggi, dalla mia finestra, capitale del Mondo, chino sulla piazza dove iniziavano tutte le strade.
E tutto era certo, a quel tempo, o, per lo meno, nulla aveva il sapore dell’irrimediabile. Neppure la morte di mia zia. A lungo lei restò nei ritratti e in giardino, a ricamare all’ombra delle magnolie, a girare per la casa nei piccoli rumori del quotidiano, finché, a poco a poco, andò confondendosi con le molte assenze che venivano a sedersi sulla sedia, dove, un tempo, sedeva mia zia.
E io dormivo posato sull’eternità, come se tutto fosse certo per sempre, dormivo con molti occhi, molti gesti che vegliavano sul mio sonno. A volte avevo incubi, mi svegliavo, inquieto, in piena notte, qualcosa sembrava volersi strappare da me e allora esclamavo:
– Madre!
e poi quella voce, tanto calma, entrava dentro di me, scacciava i fantasmi, ed era di nuovo la mia stanza, il dolce calore della mia casa al vertice della tenerezza.
Non c’era polizia a quel tempo. Nessuno avrebbe rubato la tranquillità del mio sonno, nessuno sarebbe venuto in piena notte a prelevarmi, perché bastava che chiamassi:
– Madre!
e poi una voce, tanto calma, scacciava i fantasmi. Ed era la pace, a quel tempo in cui tutti gli anni, quando arrivava il mese di maggio, alle dieci e un quarto del mattino, mia madre apriva la porta della mia stanza e sistemava, religiosamente, un mazzo di rose rosse sulla mia vita, a quel tempo in cui dormire, svegliarsi, nascere, crescere, vivere, morire erano un rito nel rito delle stagioni.
Nel maggio del 1963 ero in prigione. Talvolta, in piena notte, un grido mi scombussolava la testa, direi addirittura la vita, e mi svegliavo sudato, indolenzito, come se un topo (forse la paura?) mi stesse rosicchiando lo stomaco Ed era inutile chiamare. Dov’era finita quella voce che un tempo veniva a rimettere il sonno al suo posto, riportando la pace dentro di me? E le mattine sospese nel mese di maggio, in cui svegliarsi era una festa?
Dov’era finita la tenerezza? Dov’era finita la mia vita?
Nel maggio del 1963 ero in prigione. Dormivo  – come dirlo? – risvegliato a ogni minuto. Avevo appreso l’irrimediabile. Qualcosa, dentro di me, si era frantumato per sempre (per sempre? Cosa vuol dire per sempre?). Era inutile chiamare. Avevo imparato, fisicamente, la solitudine. Nonostante nella cella a fianco, qualcuno, battendo con le dita contro la parete, mi dicesse:
– Coraggio!
io ero, per la prima volta, fisicamente solo, dentro il mio sonno popolato da quel grido che talvolta mi scombussolava la testa. (Dov’era la voce che scacciava i fantasmi?).
Ed era terribile quel mattino senza mattino, quella realtà bianca e gelida, tutta fatta di pareti, grate, domande, grida.
Nonostante, nella cella a fianco, qualcuno, battendo con le dita contro la parete, mi dicesse:
– Buon giorno!
era terribile svegliarsi in quell’angusto paesaggio di sette passi di lunghezza per sette di larghezza, tanto ostile, tanto doloroso quanto le regioni degli incubi.  Perché svegliarsi era avere la certezza che la realtà non avrebbe smentito l’incubo.
Nonostante le mie dita battendo contro la parete trasmettessero notizie di un uomo che poteva rispondere:
– Buon giorno,
con la testa dritta, era terribile svegliarsi nel mese di maggio con la certezza che il giorno dodici mia madre non sarebbe entrata nella mia stanza, lasciandomi sulla fronte un bacio, e rose rosse sui miei ventisette anni.
Forse è necessario rinunciare alla felicità per conquistare la felicità. Io ero in prigione, nel maggio del 1963. Avevo imparato la solitudine. Avevo imparato che se anche urli con tutte le tue forze quando ti svegli in piena notte con un grido nella testa e un ratto (o forse la paura?) che ti rosicchia lo stomaco, nessuno, nessuno verrà a riportare la pace dentro di te. Ed è proprio quello il momento in cui si scopre se le travi maestre di un uomo resisteranno. Perché solo la tua voce, amico, risponderà al tuo appello torturato nella notte. E in quell’ora (la più solitaria delle ore) se riuscirai a stringere i denti, a sferrare un pugno alla parete, ad accenderti una sigaretta, se riuscirai a vincere quell’incontro con la solitudine nel punto più profondo di te stesso, con che gioia, con che strana gioia, il mattino seguente risponderai:
– Buon giorno!
nonostante sia terribile svegliarsi nel mese di maggio, in quell’angusto paesaggio, gelido e bianco, di sette passi di lunghezza per sette di larghezza.
Certo che si possono scegliere altre strade. Ma avrei potuto io scegliere un’altra strada? Avrei forse potuto dormire sonni tranquilli, ovunque fossi, sapendo che, da qualche parte nella notte, c’erano uomini che picchiavano, uomini che gridavano?
I fantasmi erano entrati nel mio sonno, avevano invaso la mia casa al vertice della tenerezza; i fantasmi erano padroni del paese. E se fossero venuti all’improvviso, in piena notte, e io avessi chiamato:
– Madre!
la voce (tanto calma) di mia madre nulla avrebbe potuto contro di loro. Era un lavoro per me, un compito per tutti quelli che non potevano sopportare l’assoggettamento. Io non avevo mai potuto sopportare l’assoggettamento. Avrei forse potuto scegliere un’altra strada?
Per questo, nel maggio del 1963, ero in prigione, questo è, in un certo senso, ero al mio posto.
Il giorno dodici non mi svegliai con il bacio di mia madre.
Ma quella mattina (non posso dirlo con certezza perché non avevo orologio, ma forse – chissà? – alle dieci e un quarto, che è l’ora in cui sono nato), il secondino mi consegnò, già aperta, una lettera di mia madre. E spiegando i fogli contenuti nella busta violata, i petali rossi, di una rosa rossa, caddero, come una lacrima di sangue, sul suolo della mia cella.

Manuel Alegre, da Piazza della canzone. In preparazione per Edizioni Kolibris.
Traduzione di Chiara De Luca.

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