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Mário De Sá-Carneiro, O homem dos sonhos/L’uomo dei sogni

Traduzione di Emilio Capaccio

O homem dos sonhos

Nunca soube o seu nome. Julgo que era russo, mas não tenho a certeza. Conheci-o em Paris, num Chartier gorduroso de Boul’Mich, nos meus tempos de estudante falido de Medicina. Todas as tardes jantávamos à mesma mesa, de forma que um dia entabulámos conversa. Era um espírito original e interessantíssimo; tinha opiniões bizarras, ideias estranhas – como estranhas eram as suas palavras, extravagantes os seus gestos. Aquele homem parecia-me um mistério. Não me enganava, soube-o mais tarde: era um homem feliz. Não estou divagando: era um homem inteiramente feliz – tão feliz que nada lhe pode aniquilar a sua felicidade. Eu costumo dizer, até, aos meus amigos que o facto mais singular da minha vida é ter conhecido um homem feliz. O mistério, penetrei-o uma noite de chuva – uma noite muito densa, frigidíssima. Eu começara amaldiçoando a vida, e, num tom que lhe não era habitual, o meu homem apoiou:

– Tem razão, muita razão! É uma coisa horrível esta vida – tão horrível que se não pode tornar bela! Olhe um homem que tenha tudo: saúde, dinheiro, glória e amor. É-lhe impossível desejar mais, porque possui tudo quanto de formoso existe. Atingiu a máxima ventura, e é um desgraçado. Pois há lá desgraça maior que a impossibilidade de desejar!

E creia que não é preciso muito para chegarmos a tamanha miséria. A vida, no fundo, contém tão poucas coisas, e é tão pouco variada …Olhe, em todos os campos. Diga-me: ainda se não enjoou das comidas que lhe servem desde que nasceu? Enjoou-se, é fatal; mas nunca as recusou porque è um homem, e não pode nem sabe dominar a vida. Chame os mais belos cozinheiros. Todos lhe darão legumes e carnes – meia dúzia de espécies vegetais, meia dúzia de espécies animais. Mesmo na terra, o que não for animal ou vegetal é sem dúvida mineral …Eis o que demonstra bem a penúria inconcebível da Natureza!

E quanto aos sentimentos? Descubra-me algum que, no fim de contas, se não reduza a qualquer destes dois: amor ou ódio. E as sensações? Duas também: alegria e dor. Decididamente, na vida, anda tudo aos pares, como os sexos. A propósito: conhece alguma coisa mais desoladora do que isto de só haver dois sexos?

Mas voltando ao campo material. Arranje-me um divertimento que não seja a religião, a arte, o teatro ou o esporte. Não me arranja, asseguro-lhe. Com certeza o que existe de melhor na vida é o movimento, porque, caminhando com uma velocidade igual à do tempo, no-lo faz esquecer. Um comboio em marcha é uma máquina de devorar instantes – por isso a mais bela que os homens inventaram.

Viajar é viver o movimento. Mas, ao cabo de pouco viajarmos, a mesma sensação da monotonidade terrestre nos assalta, bocejantemente nos assalta. Por roda a banda o mesmo cenário,

os mesmos acessórios: montanhas ou planícies, mares ou pradarias e florestas – as mesmas cores: azul, verde e sépia – e, nas regiões polares, a brancura cegante, ilimitada, expressão-última da monotonidade. Eu tive um amigo que se suicidou por lhe ser impossível conhecer outras cores, outras paisagens, além das que existem. E eu, no seu caso, teria feito o mesmo.

Sorri, ironicamente observando:

– Não o fez contudo …

– Ah, mas por quem me toma? …Eu conheço outras cores, conheço outros panoramas. Eu conheço o que quero! Eu tenho o que quero!

Fulguravam-lhe os estranhos olhos azuis; chegou-se mais para mim e gritou:

– Eu não sou como os outros. Eu sou feliz, entenda bem, sou feliz!

Era tão singular a sua atitude, tão especial o tom da sua voz, que julguei estar ouvindo um louco, e senti um desejo infinito de pôr termo à conversa. Mas não havia pretexto. Tive que ficar, e, a partir deste momento, o homem bizarro, sem se deter um instante, fez-me a seguinte admirável confissão:

«É bem certo. Eu sou feliz. Nunca dissera a ninguém o meu segredo. Mas hoje, não sei porquê, vou-lho contar a si. Ah!, supunha nesse caso que eu vivia a vida? … Triste ideia fez de mim! Julguei que me tivesse em melhor conta. Se a vivesse, há muito já que teria morrido dela. O meu orgulho è indomável, e o maior vexame que existe é viver a vida. Não me canso de lho gritar: a vida humana é uma coisa impossível – sem variedade, sem originalidade. Eu comparo-a à lista dum restaurante onde os pratos sejam sempre os mesmos, com o mesmo aspecto, o mesmo sabor.

«Pois bem! Eu consegui variar a existência – mas variá-la quotidianamente. Eu não tenho só tudo quanto existe – percebe? – eu tenho também tudo quanto não existe. (Aliás, apenas o que não existe é belo.) Eu vivo horas que nunca ninguém viveu, horas feitas por mim, sentimentos criados por mim, voluptuosidades só minhas – e viajo em países longínquos, em nações misteriosas que existem para mim, não porque as descobrisse, mas porque as edifiquei. Porque eu edifico tudo. Um dia hei-de mesmo erguer o ideal – não obtê-lo, muito mais: construí-lo. E já o entrevejo fantástico … e todo esguio …todo esguio …a extinguir-se em altura azul …esculpido em vitória … resplandecendo ouro …não, mas um metal mais áureo do que o ouro …

«De resto, é evidente, faltam-me as palavras para lhe exprimir as coisas maravilhosas que não existem …Ah! o ideal …o ideal …Vou sonhá-lo esta noite …Porque é sonhando que eu vivo tudo. Compreende? Eu dominei os sonhos. Sonho o que quero. Vivo o que quero.»

«As viagens maravilhosas que tenho feito. Vou-lhe contar algumas …A mais bela é esta, porque foi a mais temível:

«Eu estava farto de luz. Todos os países que percorrera, todos os cenários que contemplava, inundava-os a luz do dia, e, à noite, a das estrelas. Ah!, que impressão enervante me causava essa luz eterna, essa luz enfadonha, sempre a mesma, sempre tirando o mistério às coisas …Assim parti para uma terra ignorada, perdida em um mundo extra-real onde as cidades e as florestas existem perpetuamente mergulhadas na mais densa treva …Não há palavras que traduzam a beleza que experimentei nessa região singular. Porque eu via as trevas. A sua inteligência não concebe isto, decerto, nem a de ninguém …

«Era uma capital imensa …Os bulevares rasgavam-se extensíssimos, sempre ascendendo, ladeados por grandes árvores; a multidão pejava-os girando silenciosa, e os veículos – os trens, os grandes ónibus, os automóveis – rodavam isocronamente num clangor soturno. E todo aquele silêncio se reunia em música. Ah!, que estranho calafrio de medo me varou, delicioso e novo, o corpo dispersado! Em face dos meus olhos abria-se uma vida misteriosa, enfim, porque a luz a não iluminava! …Espectáculo soberbo e pavoroso! Eu via a treva! …Eu via a treva! …No recanto duma rua perdida encontrei dois amantes a morderem-se nas bocas. Ai, como deviam ser grandiosos aqueles beijos profundos na suprema negrura das trevas densíssimas! …Mais longe assisti a uma cena de sangue: cruzavam-se estiletes, havia gritos de dor …Nunca vivi um momento mais temível do que esse …E, pelos arrabaldes, os vinhedos carregados de frutos, os trigais maduros, as searas e os pomares que o vento balanceava …toda a vida, em suma, toda a vida, na escuridão impenetrável …Que triunfo! Que triunfo! …

«Glória maior foi talvez a que atingi na minha viagem a um mundo perfeito onde os sexos não são dois só …Pude ver labirintos de corpos entrelaçados a possuírem-se numa cadeia de espasmos contínuos, sucessivos e actuais, que se prolongavam uns pelos outros em fuga distendida …Infinito! Infinito! Era, ruivamente era, o cântico aureoral da carne, a partitura sublime da voluptuosidade que fremiam todos esses sexos diferentes vibrando em turbilhões …A vida a deslizar em ondas …a vida a deslizar em ondas! …»

«Narrar-lhe todas as minhas viagens seria impossível. No entanto quero-lhe falar ainda doutro país.

«Que estranho país esse …Todo duma cor que lhe não posso descrever porque não existe – duma cor que não era cor. E eis no que residia justamente a sua beleza suprema. A atmosfera deste mundo, não a constituía o ar nem nenhum outro gás – não era atmosfera, era música. Nesse país respirava-se música. Mas o que havia de mais bizarro era a humanidade que o povoava. Tinha alma

e corpo como a gente da terra. Entanto o que era visível, o que era definido e real – era a alma. Os corpos eram invisíveis, desconhecidos e misteriosos, como invisíveis, misteriosas e desconhecidas são as nossas almas. Talvez nem sequer existissem, da mesma forma que as nossas almas talvez não

existam também…

«Ah!, que sensações divinas vivi nesse país! …O meu espírito ampliou-se …Tive a noção de perceber o incompreensível …Hei-de talvez lá voltar um dia, a esse país sem igual, a esse país d’Alma …

«Em suma, meu amigo, eu viajo o que desejo. Para mim há sempre novos panoramas. Se quero montanhas, escuso de ir à Suíça: parto para outras regiões onde as montanhas são mais altas, os glaciares mais resplandecentes. Há para mim uma infinidade de cenários montanhosos, todos

diversos, como há também mares que não são mares e extensões vastíssimas que não são montes nem planícies, que são qualquer coisa mais bela, mais alta ou mais plana – enfim, mais sensível! O mundo para mim ultrapassou-se: é universo, mas um universo que aumenta sem cessar, que sem cessar se alarga. Quer dizer, não é mesmo universo: é mais alguma coisa.»

«No círculo espiritual, também para mim não há barreiras – e tenho sentido, além do amor e do ódio, outros sentimentos que lhe não posso definir, é claro, porque só eu os vivo, não havendo assim a possibilidade de lhos fazer entender nem por palavras, nem por comparações. Sou o único homem que esses sentimentos emocionam. Logo seria desnecessário ter uma voz que os traduzisse, visto que a ninguém a poderia comunicar. Aliás o mesmo acontece com as horas mais belas que tenho vivido. Só lhe posso dizer as que de longe se assemelham às da vida e que por isso exactamente são as menos admiráveis.»

«Agora passo-lhe a esboçar algumas voluptuosidades novas.

«Um corpo de mulher é sem dúvida uma coisa maravilhosa – a posse de dum corpo esplêndido, todo nu, é um prazer quase extra-humano, quase de sonho. Ah!, o mistério fulvo dos seios esmagados, a escorrer em beijos, e as suas pontas loiras que nos roçam a carne em êxtases de mármore …as pernas nervosas, aceradas – vibrações longínquas de orgia imperial …os lábios que foram esculpidos para ferir de amor …os dentes que rangem e grifam nos espasmos de além …Sim, è belo; tudo isso é muito belo! Mas o lamentável é que poucas formas há de possuir toda essa beleza. Emaranhem-se os corpos contorcidamente, haja beijos de ânsia em toda a carne, o sangue corra até …Por fim sempre os dois sexos se acariciarão, se entrelaçarão, se devorarão – e tudo acabará em um espasmo que há-de ser sempre o mesmo, visto que reside sempre nos mesmos órgãos! …

«Pois bem! Eu tenho possuído mulheres de mil outras maneiras, tenho delirado outros espasmos que residem noutros órgãos.

«Ah!, como é delicioso possuir com a vista …A nossa carne não toca, nem de leve, a carne da amante nua. Os nossos olhos, só os nossos olhos, é que lhe sugam a boca e lhe trincam os seios … Um rio escaldante se nos precipita pelas veias, os nossos nervos tremem todos como as cordas duma lira, os cabelos sentem, dilatam-se-nos os músculos… e os olhos de longe, vendo, vão exaurindo toda a beleza, até que por fim a vista se nos amplia, o nosso corpo inteiro vê, um estremeção nos sacode e um espasmo ilimitado, um espasmo de sombra, nos divide a carne em ânsia ultrapassada …Atingimos o gozo máximo! Possuímos um corpo de mulher só com a vista. Possuímos fisicamente, mas imaterialmente, como também se pode amar com as almas. Neste caso são mais doces, mais serenos, mas não menos deliciosos, os espasmos que nos abismam.

«Há ainda outra voluptuosidade que, por interessante, lhe desejo esboçar: é a posse total dum corpo de mulher que sabe unicamente a um seio que se esmaga.

«Enfim, meu amigo, compreenda-me: eu sou feliz porque tenho tudo quanto quero e porque nunca esgotarei aquilo que posso querer. Consegui tornar infinito o universo – que todos chamam infinito, mas que é para todos um campo estreito e bem murado.»

Houve um grande silêncio. Pelo meu cérebro ia um tufão silvando, e as imagens fantásticas que o desconhecido me evocara – rodopiantes, pareciam querer no entanto definir-se em traços mais reais. Mas logo que estavam prestes a fixar-se, desfaziam-se como bolas de sabão ..O homem disse ainda:

– A vida é um lugar-comum. Eu soube evitar esse lugar-comum. Eis tudo.

E mandou vir conhaque. Estive dois dias sem o ver. Quando o encontrei de novo à mesa do restaurante, notei uma expressão diferente no seu rosto. Confessou-me:

– Já conheço o ideal. No fim de contas é menos belo do que imaginava …E o meu amigo que tem feito? Pusemo-nos a falar de banalidades. Eu quis ainda levar a conversa para a sua vida sonhada, mas todos os meus esforços permaneceram inúteis. Saímos. Acompanhou-me até casa. Deu-me as boas-noites. Depois, nunca mais o vi. Largo tempo meditei no homem estranho: meses e meses a sua recordação me obcecou perturbadoramente. Quis também fruir o segredo do dominador dos sonhos. Mas embalde. Não os consegui nunca imperar e, breve, renunciei à quimera dourada. Desde aí, a minha loucura foi toda ela de esparzir luz, ainda que só luz crepuscular, sobre o mistério admirável. E um dia finalmente, um dia de triunfo, eu pressenti a verdade. Que vinha a ser aquele homem?

Segredo! Segredo! Eu dele ignorava sempre tudo. Muita vez me acompanhou a minha casa – e eu jamais conhecera onde fosse a sua casa. Afigurara-se-me russo; porém não mo dissera nunca. Alto, extremamente alto e magro. Grandes cabelos encrespados, dum loiro triste, fugitivo, e os seus olhos fantásticos de azul, com certeza os olhos mais estranhos que me iluminaram algum dia. Só os posso evocar nesta incoerência: eram dum brilho fulgurante – mas não brilhavam.

A sua voz de calafrio, ressoando abafada e sonora, parecia vir duma garganta falsa que não existisse no seu corpo. Quando se erguia e caminhava, os seus passos ágeis, silenciosos, longos, davam a impressão total de que os seus pés, em marcha aérea, não pousavam no solo: a sua marcha era indecisa – e eis aqui o mais bizarro – como indecisas e brumosas igualmente eram as suas feições. Os seus traços fisionómicos dir-se-iam inconstantes, sendo quase impossível abrangê-los em conjunto: um grande pintor teria uma real dificuldade em fixar na tela o rosto móvel do homem dos sonhos. Quem longas horas o tivesse na sua frente, não o ficava entanto conhecendo: aquele rosto fugitivo não se aprendia em longas horas.

Enfim, da sua fisionomia, do seu andar, dos seus gestos, da sua voz, ressaltava esta impressão: o desconhecido era uma criatura de bruma, indefinida e vaga, irreal… Uma criatura de sonho! – passou-me esta ideia pelo espírito como um relâmpago de claridade. Sim, o meu homem era perfeitamente comparável às personagens que nos surgem nos sonhos e que nós, de manhã, por maiores esforços que empreguemos, não conseguimos reproduzir inteiramente materializadas, porque nos faltam pormenores do seu desenho: se os olhos nos lembram, esqueceu-nos a expressão da boca; se sabemos a cor castanha dos cabelos, fugiu-nos o tom fantástico dos olhos. Em suma, è nos impossível reconstruir o conjunto da personagem indecisa que entrevimos sonhando. As suas feições escapam-nos – tal como escapavam as feições do homem bizarro.

Queria dizer: o desconhecido maravilhoso era uma figura de sonho – e entretanto uma figura real. Mas foi precisamente quando, envaidecido, eu suscitara já esta longínqua claridade, que o segredo admirável se me volveu em ideia fixa. Temi quase endoidecer, e não sei o que teria sido do meu pobre cérebro que a asa do mistério roçara, se por fim não conseguisse mergulhar mais fundo o abismo azul. Se o homem dos sonhos era uma figura de sonho, mas, ao mesmo tempo, uma criatura real – havia de viver uma vida real. A nossa vida, a minha vida, a vida de todos nós? Impossível. A essa existência odiosa ele confessara-me não poder resistir. Demais, nessa existência, a sua atitude era duma figura de sonho. Sim, duma figura irreal, indecisa, de feições irreais e indecisas. Logo, o desconhecido maravilhoso não vivia a nossa vida. Mas se a não vivia e entretanto surgia vagamente nela, é porque a sonhava. E eis como eu pude entrever o infinito. O homem estranho sonhava a vida, vivia o sonho. Nós vivemos o que existe; as coisas belas, só temos força para as sonhar. Enquanto que ele não. Ele derrubara a realidade, condenando-a ao sonho. E vivia o irreal. Poeira a ascender quimerizada …Asas d’ouro! Asas d’ouro! …

L’uomo dei sogni

Non ho mai saputo il suo nome. Credo fosse russo, ma non ne sono sicuro. Lo conobbi a Parigi, in uno dei sudici Chartier[1] di Boul’Mich[2] nei miei giorni da studente fallito di Medicina. Ogni sera cenavamo allo stesso tavolo, di modo che una volta attaccammo a parlare. Era uno spirito originale e interessante; aveva opinioni bizzarre, idee strane – come strane erano le sue parole, stravaganti i suoi gesti. Quell’uomo sembrava un mistero. Non mi ingannavo, l’ho saputo più tardi, era un uomo felice. Non sto divagando: era un uomo completamente felice – così felice che la sua felicità non poteva essere annichilita. Sono solito dire ai miei amici che il fatto più singolare della mia vita è aver conosciuto un uomo felice. Il mistero lo penetrai in una notte di pioggia – una notte molto fitta, rigidissima. Avevo cominciato e maledire la vita, e con un tono che non gli era abituale, il mio uomo convenne:

– Ha ragione, molta ragione! È una cosa orribile questa vita – che non può diventare bella! Osservi un uomo che ha tutto: salute, denaro, gloria e amore. Gli è impossibile desiderare altro, perché ha posseduto tutto quanto di piacevole esiste. Ha attinto alla massima fortuna, ed è un disgraziato, perché la più grande disgrazia è l’impossibilità di desiderare!

E credo che non ci voglia molto per arrivare a tanta miseria. La vita, in fondo, contiene così poche cose, ed è così poco varia …Guardi, in tutti i campi. Mi dica: non è ancora nauseato del cibo che le servono da quando è nato? Sì che lo è, è fatale; ma non lo ha mai rifiutato perché è un uomo, e non può né sa dominare la vita. Chiami a sé i migliori cuochi. Tutti le daranno verdure e carne – mezza dozzina di specie vegetali, mezza dozzina di specie animali. Persino sulla terra, ciò che non è animale o vegetale è senza dubbio minerale …Questo è quello che dimostra chiaramente la carenza inconcepibile della Natura!

E quanto ai sentimenti? Me ne trovi qualcuno che alla fine non si riduca a uno di questi due: amare o odiare. E le sensazioni? Due lo stesso: gioia e dolore. Decisamente, nella vita, va tutto in coppia, come i sessi. A proposito: conosce una cosa più desolante di avere solo due sessi?

 Ma torniamo al campo materiale. Mi dia uno svago che non sia la religione, l’arte, il teatro o lo sport. Non può darmelo glielo assicuro. Sicuramente ciò che esiste di meglio nella vita è il movimento, perché, camminando con una velocità pari al tempo ce lo fa dimenticare. Un treno in corsa è una macchina che divora istanti – per questo è la cosa più bella che gli uomini hanno inventato.

Viaggiare è vivere il movimento. Ma in capo a poco tempo che viaggiamo, la stessa sensazione della monotonia terrestre ci assale, con sbadigli ci assale. Ritorna a essere lo stesso scenario, gli stessi accessori: montagne o pianure, mari o praterie e foreste – gli stessi colori: azzurro, verde e seppia – e, nelle regioni polari, il biancore accecante, sconfinato, espressione ultima della monotonia. Avevo un amico che si è suicidato a causa dell’impossibilità di incontrare altri colori, altri paesaggi, in aggiunta a quelli che esistono. E io, al posto suo, avrei fatto lo stesso.

Sorrisi, ironicamente osservando:

– Non l’ha ancora fatto …

– Ah, ma per chi mi hai preso? …Io conosco altri colori, altri panorami. Io so quello che voglio! Io ho quello che voglio!

Scintillavano i suoi strani occhi azzurri; si avvicinò di più a me e gridò:

– Io non sono come gli altri. Io sono felice, badi bene, sono felice!

Era così insolito il suo atteggiamento, così singolare il tono della sua voce, che pensai stessi ascoltando un pazzo, e avvertii un desiderio infinito di porre fine alla conversazione. Ma non avevo il pretesto. Mi toccò restare, e, a partire da quel momento, il bizzarro uomo, senza fermarsi un istante, mi fece la seguente ammirevole confessione:

– È così. Sono felice. Non ho mai detto a nessuno il mio segreto. Ma oggi, non so per quale motivo, voglio dirlo a lei. Ah, supponeva che vivessi la vita? …Triste idea si è fatto di me! Pensavo avesse maggiore considerazione della mia persona. Se l’avessi vissuta, da tempo sarei morto per causa sua. Il mio orgoglio è indomabile, e la più grande vergogna che esiste è vivere la vita. Non mi stanco di gridarlo: la vita umana è insopportabile – senza varietà, senza originalità. La paragono al menù di un ristorante dove i piatti sono sempre gli stessi, con lo stesso aspetto, lo stesso sapore.

Ebbene! Sono riuscito a mutare l’esistenza –, ma a mutarla ogni giorno. Io non ho solo tutto quello che esiste – comprende? – Io ho anche tutto quello che non esiste. (A proposito, proprio quello che non esiste è bello.) Io vivo ore che mai nessuno ha vissuto, ore fatte da me, sentimenti creati da me, piaceri solo miei – e viaggio in paesi lontani, in nazioni misteriose che esistono per me, non perché le abbia scoperte, ma perché le ho edificate. Perché io edifico tutto. Un giorno edificherò lo stesso ideale – non raggiungerlo, molto di più: costruirlo. E già lo vedo fantastico … e tutto assottigliato … tutto assottigliato… estinguersi nell’azzurra altezza …scolpito in vittoria …rispendendo oro …no, anzi, un metallo più aureo dell’oro …

Del resto, è evidente, mi mancano le parole per esprimerle le cose meravigliose che non esistono … Ah! l’ideale …l’ideale …Lo sognerò stanotte …Perché è sognando che vivo tutto. Intende? Io ho dominato i sogni. Sogno quello che voglio. Vivo quello che voglio.

I viaggi meravigliosi che ho fatto. Gliene racconterò qualcuno …Il più bello è questo perché fu il più temibile:

ero stufo di luce. Tutti i paesi che avevo percorso, tutti gli scenari che contemplavo, li inondava la luce del giorno, e di notte quella delle stelle. Ah, che impressione snervante mi procurava questa luce eterna, questa luce tediosa, sempre la stessa, sempre a svelare il mistero delle cose …Così partii per una terra ignota, perduta in un mondo extra-reale, dove le città e le foreste esistono perennemente immersi nell’oscurità più fitta …Non ci sono parole che riuscirebbero a tradurre la bellezza che sperimentavo in questa regione singolare. Perché io vedevo il buio. La sua intelligenza non concepisce questo, naturalmente, né quella di nessun altro.

Era una capitale immensa …I viali si aprivano lunghissimi, sempre crescenti, fiancheggiati da grandi alberi; la folla s’accresceva andando silenziosa, e i veicoli – i treni, i grandi omnibus, le automobili – giravano in modo isocrono con un clangore scontroso. E tutto quel silenzio si riuniva in musica. Oh, che strano brivido di paura mi trafisse, delizioso e nuovo, il corpo disperso! Davanti ai miei occhi si apriva una vita misteriosa, perché la luce non la illuminava! …Spettacolo superbo e pauroso! Io vedevo l’oscurità! …Io vedevo l’oscurità! …In un angolo di una strada perduta incontrai due amanti che si mordevano le bocche. Oh, come dovevano essere grandiosi quei baci profondi nella somma oscurità delle fittissime tenebre! …Più lontano assistetti a una scena di sangue: duellavano stiletti, ci furono urla di dolore …Non avevo mai vissuto un momento più temibile di questo …E nelle periferie, vigneti carichi di frutta, campi di grano maturo, raccolti e pomari che il vento dondolava …tutta la vita, insomma, tutta la vita, nell’oscurità impenetrabile …Che trionfo! Che trionfo! …

Maggior gloria forse fu quella a cui attinsi nel mio viaggio per un mondo perfetto in cui i sessi non erano semplicemente due …Potei vedere labirinti di corpi intrecciati possedersi in una catena di spasmi continui, successivi e simultanei, che si prolungavano uno dopo l’altro in estasi accesa …Infinito! Infinito! Era, infuocatamente era il cantico aurorale della carne, la partitura sublime del piacere che fremevano tutti questi sessi differenti vibrando in vortici …La vita che fluiva in onde …la vita che fluiva in onde! …

Raccontare tutti i miei viaggi sarebbe impossibile. Tuttavia voglio accennarle ancora un altro paese.

Che strano paese questo …Tutto di un colore che non posso descrivere perché non esiste – di un colore che non era colore. E proprio in questo risiedeva la sua assoluta bellezza. L’atmosfera di questo mondo, non era composta da aria né da qualunque altro gas – non era atmosfera, era musica. In questo paese si respirava musica. Ma la cosa più bizzarra era l’umanità che lo popolava. Aveva corpo e anima come quelli della gente della terra. Però quello che era visibile, quello che era definito e reale – era l’anima. I corpi restavano invisibili, sconosciuti e misteriosi, come invisibili, misteriose e sconosciute sono le nostre anime. Forse nemmeno esistevano nello stesso modo in cui esistono le nostre anime, forse non esistevano neppure …

Oh! Che sensazioni divine ho vissuto in questo paese! …Il mio spirito si è dilatato …ho avuto la sensazione che percepisse l’incomprensibile …Bisognerebbe forse tornarci un giorno, in questo paese unico, in questo paese dell’Anima …

In breve, amico mio, vado in viaggio dove voglio. Per me ci sono sempre nuovi orizzonti. Se voglio montagne, evito di andare in Svizzera: parto per altre regioni dove le montagne sono più alte, i ghiacciai più splendenti. Per me ci sono un’infinità di paesaggi montuosi, tutti diversi, così come ci sono mari che non sono mari e distese vastissime che non sono monti né pianure che sono qualcosa di più bello, di più alto o di più piano – in una parola, di più percettibile! Il mondo per me è oltrepassato: è universo, ma un universo che aumenta senza cessare, che senza cessare si allunga. Voglio dire, non è lo stesso universo: è sempre qualcosa di nuovo.

Nel cerchio spirituale, per me, poi, non ci sono barriere – e ho provato, al di là dell’amore e dell’odio, altri sentimenti che non si possono definire, naturalmente, perché li vivo appena, non essendoci la possibilità di farli capire né con le parole, né con i paragoni. Io sono l’unico uomo che tali sentimenti emozionano. Sarebbe inutile avere una voce che li traduca dal momento che non si possono comunicare a nessuno. La stessa cosa accade con le ore più belle che ho vissuto. Posso solo dirle a cosa lontanamente assomigliano della vita e che proprio per questo risultano meno interessanti.

Ora le accenno alcuni piaceri nuovi.

Un corpo di donna è senza dubbio una cosa meravigliosa – il possesso di un corpo splendido, tutto nudo, è un piacere quasi extra-umano, quasi da sogno. Ah! il mistero fulvo dei seni premuti, scorrendoli con i baci e le loro punte rosee che ci sfiorano la carne in estasi di marmo …le gambe contratte, d’acciaio – vibrazioni lontane di orgia imperiale …le labbra che furono scolpite per ferire d’amore …i denti che digrignano e si mostrano oltre ogni spasmo …Sì, è bello; tutto questo è molto bello! Ma la cosa triste è che ci sono pochi modi di possedere tutta questa bellezza. Avvolgendosi i corpi contortamente, si hanno baci che fremono su tutto la carne, il sangue scorre allo stesso modo … Alla fine, i due sessi sempre si accarezzeranno, si abbracceranno, si divoreranno – tutto finirà in uno spasmo che è quello di sempre, visto che risiede sempre negli stessi organi! …

Ebbene! Io ho posseduto donne in mille altre maniere, ho delirato con altri spasmi che risiedono in altri organi.

Ah! Come è delizioso possedere con lo sguardo …La nostra carne non tocca, neanche di poco, la carne dell’amante nuda. I nostri occhi, solo i nostri occhi, succhiano la sua bocca e stringono i suoi seni …Un fiume rovente si precipita dentro le vene, i nostri nervi tremano tutti come le corde di una lira, i capelli sentono, si dilatano i muscoli …e gli occhi da lontano, vedendo, vanno a esaurire tutta la bellezza, fino a quando finalmente la vista non si espande, il nostro corpo intero vede, un fremito ci scuote e un spasmo illimitato, uno spasmo d’ombra, ci divide la carne, oltrepassato il desiderio …Raggiungiamo il massimo piacere! Possediamo un corpo di donna soltanto con lo sguardo. Possediamo fisicamente, ma immateriale, come allo stesso modo si possono amare le anime. In questo caso sono più dolci, più sereni, ma non meno deliziosi, gli spasmi che ci inondano.

C’è ancora un altro piacere che, per quanto è interessante, desidero abbozzarle: il possesso totale di un corpo che ha un solo seno da afferrare.

Ad ogni modo, amico mio, mi comprenda: sono felice perché ho tutto quello che voglio, e perché mai esaurirò quello che posso volere. Sono riuscito a fare infinito l’universo – che tutti chiamano infinito, ma è per ognuno un campo stretto e ben recintato.

Ci fu un grande silenzio. Attraverso il mio cervello andava sibilando un tifone, e le immagini fantastiche che lo sconosciuto mi evocava – vorticose, sembravano volersi nel frattempo definirsi in tratti più reali. Ma non appena si fissavano un momento, evaporavano come bolle di sapone. L’uomo disse ancora:

– La vita è un luogo comune. Io ho saputo evitare questo luogo comune. Questo è tutto.

E ordinò un cognac. Passarono due giorni senza vederlo. Quando lo incontrai nuovamente al tavolo del ristorante, notai una espressione diversa sul suo volto. Mi confessò:

– Conosco ormai l’ideale. Dopo tutto è meno bello di quanto immaginassi …E lei, amico mio, che ha fatto?

Iniziammo a parlare di banalità. Volevo far scivolare la conversazione sulla sua vita sognata, ma tutti i miei sforzi risultarono vani. Uscimmo. Mi accompagnò fino a casa. Mi diede la buona notte. In seguito non l’ho più rivisto. Molto tempo meditai sullo strano individuo: per mesi e mesi il suo ricordo mi inquietò in modo ossessivo. Volevo per di più conoscere il segreto per dominare i sogni. Tutto inutile. Non riuscii mai a governarli, e, presto, rinunciai alla dorata chimera. Da allora, il mio chiodo fisso fu di fare luce, fosse anche luce crepuscolare, sul mirabile mistero. E un giorno, finalmente, un giorno di trionfo, percepii la verità. Chi era quell’uomo?

Segreto! Segreto! Non ho mai saputo nulla di lui. Molte volte mi ha accompagnato a casa – e io non ho mai saputo dove fossa la sua. Lo credevo russo; ma non me lo ha mai detto. Alto, molto alto e magro. Lunghi capelli increspati, di un biondo triste, fuggitivo, e i suoi occhi fantastici d’azzurro, sicuramente gli occhi più strani che mi hanno illuminato in quei giorni. Posso solo evocarli in questa incoerenza: erano di una luminosità folgorante – ma non brillante.

La sua voce da brivido, risuonando vellutata e sonora, sembrava provenisse da una gola falsa che non esisteva nel suo corpo. Quando si alzava e camminava, i suoi passi agili, silenziosi, lunghi, davano l’impressione generale che i piedi, su una via aerea, non poggiassero a terra: la sua andatura era incerta – e qui è la cosa più bizzarra – come incerti e confusi erano anche i suoi lineamenti. I suoi tratti fisionomici si delineavano mutevoli, essendo quasi impossibile riunirli insieme: un grande pittore avrebbe trovato non poche difficoltà nel fissare sulla tela il volto mobile dell’uomo dei sogni. Chi lo avesse avuto davanti per molto tempo, non sarebbe riuscito a perscrutarlo: quel volto sfuggente non si conosceva nemmeno dopo lungo tempo.

In definitiva, dalla sua fisionomia, dalla sua andatura, dai suoi gesti, dalla sua voce, risaltava questa impressione: lo sconosciuto era una creatura di nebbia, indefinita, vaga, irreale …Una creatura del sogno! – mi attraversò quest’idea nello spirito come un lampo di luce. Sì, il mio uomo era perfettamente paragonabile a quelle figure che ci appaiono nei sogni, e la mattina, per quanto ci sforziamo, non riusciamo a rievocarle completamente materializzate, perché ci mancano i dettagli dei loro disegni: se ci ricordiamo degli occhi, ci siamo dimenticati dell’espressione della bocca; se conosciamo il castano dei capelli, ci è sfuggito il tono fantastico degli occhi. In breve, ci risulta impossibile ricostruire l’intera figura vaga che abbiamo intravisto nel sogno. I loro lineamenti ci sfuggono – così come sfuggivano i tratti di quell’uomo bizzarro.

Voglio dire: lo sconosciuto meraviglioso era una figura del sogno – e tuttavia una figura reale. Ma fu precisamente quando, lusingato, accesi questa luce lontana, che il segreto ammirevole si trasformò in idea fissa. Temetti quasi di impazzire, e non so cosa sarebbe stato del mio povero cervello che l’ala del mistero sfiorò, se alla fine non sarei stato capace di immergermi più a fondo nell’azzurro abisso. Se l’uomo dei sogni era una figura del sogno, ma, allo stesso tempo, una creatura reale – avrebbe dovuto vivere una vita reale. La nostra vita, la mia vita, la vita di tutti noi? Impossibile. A questa esistenza odiosa mi confessò non si poteva resistere. Per di più, in questa esistenza, la sua inclinazione era di una figura del sogno. Sì, di una figura irreale, indecisa, dai connotati irreali e indecisi. Quindi, il meraviglioso sconosciuto non viveva la nostra vita. Ma se non la viveva e al tempo stesso spuntava vagamente in essa è perché la sognava. Ed ecco come io potei scrutare l’infinito. Lo strano uomo sognava la vita e viveva il sogno. Noi viviamo ciò che esiste; le cose belle, abbiamo solo forza di sognarle. Mentre lui no. Lui demoliva la realtà, condannandola al sogno. E viveva l’irreale. Polvere che sale chimerizzata …Ali d’oro! Ali d’oro!

[1] Con il termine Chartier, o più correttamente Bouillon Chartier, si indica una catena di ristoranti nati agli inizi del secolo scorso a Parigi: Il primo Bouillon Chartier fu aperto nel 1896 dai fratelli Frédéric e Camille Chartier. Per aver conservato l’architettura e l’atmosfera dell’epoca, nel 1989 è stato dichiarato monumento storico.

[2] È il nome con cui gli studenti chiamano il Boulevad Saint-Michel, situato nel quartiere latino di Parigi, sulla sponda sinistra della Senna.

0Mário De Sá-Carneiro (1890-1916): Poeta e narratore portoghese. Nel 1915 fu condirettore insieme a Fernando Pessoa della prima rivista d’avanguardia modernista in Portogallo: “Orpheu”. Tra le sue opere ricordiamo la novella A Confissão de Lúcio (1914) e la raccolta di poesie Dispersão (1914). Condusse una vita dissoluta e disperata che lo portò a togliersi la vita, all’età di ventisei anni.

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