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Nuno Júdice, Epitáfio para uma Europa / Epitaffio per un’Europa

Jivko Sedlarski, Le Drapeau de l’Europe

Epitáfio para uma Europa

Limpo do Espírito o unto da Europa, e deito-o
nas feridas do ocidente para que sequem mais
depressa. A Europa impregna-me com a sua febre,
que eu acalmo com a água de um ócio de
culturas. A Europa atravanca os passeios da memória,
e obriga a empurrá-la para deixar passar
os que chegam. Às vezes, a Europa encosta-se
às esquinas, como se não fizesse nada,
e confundem-na com a puta da noite, como
se ela estivesse à venda; mas o que ela faz
é oferecer o corpo a quem a quiser. De outras
vezes, a Europa é a virgem que não quer
descer do altar, como se alguém a adorasse,
ainda, e lhe acendesse as velas de uma devoção
de milénios. «Tirem-me a Europa
da frente», dizem os que querem chegar
mais depressa aos lugares que a Europa
já descobriu, e perdeu, há muito. «Quero ser
como a Europa», dizem outros – os que
andaram atrás dela, e não souberam acompanhar-lhe
o passo, e caíram no primeiro obstáculo,
vendo acumularem-se por cima de si os corpos
de quem vinha atrás. A Europa enlouqueceu,
e pede que a fechem para que ninguém mais
acredite no que ela diz. A Europa é o mocho sábio
da fábula, e as crianças juntam-se à sua volta
a pensar que vão aprender alguma coisa. Tiro
a Europa do mapa e meto-a no bolso. E quando
alguém me pedir lume para o cigarro, vou puxar
por ela e acendo-a. Se o mundo arder, a culpa é
de quem me pediu lume; se a Europa se apagar,
deito-a fora e troco de isqueiro.

Nuno Júdice, A matéria do poema, Dom Quixote, Lisboa, 2008

Epitaffio per un’Europa

Pulisco lo Spirito dal grasso dell’Europa, e lo spalmo
sulle ferite dell’occidente perché si asciughino più
in fretta. L’Europa m’impregna della sua febbre,
che placo con l’acqua di un ozio di
culture. L’Europa ingombra i marciapiedi della memoria,
e obbliga a spingerla da parte per lasciar passare
quelli che arrivano. Talvolta, l’Europa si addossa
agli angoli, come se nulla fosse,
e la prendono per una prostituta, come
fosse in vendita; ma ciò che fa
è offrire il corpo a chi la desidera. Altre
volte, l’Europa è la vergine che non vuole
scendere dall’altare, come se qualcuno l’adorasse,
ancora, e le accendesse i ceri di una devozione
millenaria. “Toglimi l’Europa
dai piedi”, dicono quelli che vogliono
arrivare prima nei luoghi che l’Europa
già scoprì, e perse, da tempo. “Voglio essere
come l’Europa”, dicono altri – quelli che
la seguivano, e non seppero tenerne
il passo, e caddero al primo ostacolo,
vedendo accumularsi sopra di sé i corpi
di chi li seguiva. L’Europa impazzì,
e chiese di essere rinchiusa perché nessuno più
credesse a ciò che diceva. L’Europa è il gufo saggio
della favola, le ragazze le si radunano attorno
pensando d’imparare qualcosa. Tolgo l’Europa
dalla mappa e me la metto in tasca. E quando
qualcuno mi chiede di accendere, la tiro fuori
e l’accendo. Se il mondo prende fuoco la colpa è
di chi mi ha chiesto di accendere; se l’Europa si spegne
la butto e cambio accendino.

da La materia della poesia, Edizioni Kolibris 2015

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