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Ana Martins Marques, A vida submarina/La vita sottomarina (anticipazione)

 

Jardim

Se o jardineiro abandonasse no meio a tarefa
e cansado se sentasse numa cadeira
e gastasse toda a tarde
sob rosas gordas que são apenas rosas
e cegam de alegria
enquanto o jardim
nele mesmo
se contorce
tirando de dentro de si
o sexo intrincado das camélias
e a morte e a loucura dos lírios
e o tédio suburbano das goiabas
sob comoções antigas
talvez se sentisse um poeta
olhando o poema
que não sabe terminar.

 

 

 

 

 

Barcos de papel

Os poemas em geral são feitos de palavras
no papel
seria melhor se fossem de pano
porque poderiam tomar chuva
ou de madeira
porque sustentariam uma casa
mas em geral são feitos de palavras
no papel
e por isso servem para poucas coisas
entre as quais não se encontra
tomar chuva
ou sustentar uma casa.

Dobrados sobre si mesmos,
lançam-se no mundo
com a coragem suicida
dos barcos de papel.

 

 

 

 

 

Mapa

Escolhi a cidade
– um ponto escuro no mapa,
cercado de silêncio.
Na cidade
há uma casa que espera,
há um verão que espera,
vermelho e doce.
Há na cidade mulheres desconhecidas,
meninos,
ruas largas e estreitas.
Há um nome no mapa
que corresponde às mulheres
e aos meninos e às ruas.
Há na cidade um ritmo
para os acontecimentos,
um modo determinado
de fabricar cansaços.
Na dobra do mapa –
ao norte da cidade –
há um lago escuro, peixes,
asfalto, capim.
A cidade –
um ponto no mapa –
está cercada de silêncio.
Por isso
o meu olho
forasteiro
a escolheu.

 

 

 

 

 

A casa

A casa sonha um jardim de roseiras desordenadas
sonha a madeira a cal a sesta
sonha o vidro e sonha pequenos animais ariscos
adormecendo nos cantos
sonha a si mesma e aos quartos que não tem
à noite
enquanto nem eu nem você podemos dormir
(porque o amor acabou, e o excesso de palavras
por dizer
tornou nossos corpos pesados,
tão mais pesados do que eram
naquele tempo em que ainda se visitavam,
enquanto a sua boca falava dentro da minha
sobre lugares que estavam à nossa espera,
que envelheciam sem nós)
a casa (todo o horror das mobílias,
dos objetos que tocamos,
dos lençóis sujos da falta do seu corpo,
das coisas que testemunharam
os dias felizes e os outros)
sonha tempos vazios
ainda sem nós
ou depois de nós.

 

 

 

 

 

Rito

Como se a conhecesse de cor
repito com as mãos a curva das tuas costas
(teu corpo te veste lindamente)

vasculho teu corpo até encontrar
algo que do meu corpo
eu não sei

ignoramos porém
o nome das coisas que trocamos

comovidos com o sofrimento do pássaro
com o destino da seda
da nossa própria dor
erguemos um altar para a noite
uma noite para nada

saliva, silêncio, cigarros

ninguém testemunhará
o rito.

 

 

 

 

 

Seda

É tão difícil amar
neste mundo imperfeito
é difícil dizer alguma coisa
que não seja um equívoco
é difícil encontrar
o peso correto
das coisas
saber nosso próprio tamanho
olhar alguns bichos nos olhos
pensar com doçura
aproveitar adequadamente a luz
desejar para o pássaro um destino de pássaro,
para a seda, um destino de seda.

 

 

 

 

 

Como o alpinista

Como o alpinista ama o vazio das grandes alturas
e o mergulhador ama o silêncio da profundidade
e inveja nos peixes abissais
a monstruosidade escura da vida
como o taquígrafo ama a velocidade do sentido
e o seu segredo
e o jardineiro ama a demora ríspida das orquídeas
como o fotógrafo ama o claro e o escuro do mundo
e o boxeador ama o encontro
da exatidão e da força
como o tipógrafo ama o peso mudo das letras
e o filólogo o ninho quente das palavras
e o gramático o fulgor cego das exceções
e o alfaiate a resistência branca do linho
e a manicure a cor justa
e o tintureiro a cor justa
como o biólogo ama a multiplicidade muda do mundo
e o marinheiro ama o regime do céu e das águas,
que ecoa a decisão repetida de partir,
como o tatuador ama a página imperfeita da pele
e o joalheiro ama o que as pérolas sabem
da espera
assim eu desejaria te amar
não fosse este tumulto, e esta derrisão
e o medo.

 

 

 

 

 

Mãos

Uma trabalha mais que a outra.
Dividem o peso dos anéis.
Uma nunca aprendeu a escrever.
Com isso a outra tornou-se mais silenciosa,
mais firme, mais acostumada ao adeus.
Em alguns gestos entram as duas
numa mesma coreografia
como quando é necessário contar algo
mais que cinco.
Aceitam as manchas dos anos
como solteironas
que envelhecem juntas.

 

 

 

 

 

Manhã

Esta é a fruta da manhã –
sua carne clara.
Esta é a hora perigosa:
um outro dia oferece-se ao sol
para adoecer ou cantar,
o mundo é novo mas os olhos são antigos,
e aprenderam a reconhecer antes
de aprendera olhar.
Esta é a noite da manhã,
a noite mais alta da noite,
aquela que desenhou o pensamento
do corpo que ofereço
ao espelho da luz, à solidão e ao café.

 

 

 

 

 

Noite adentro

Atado a um barco na noite
o sono curva-se sobre si mesmo,
entregue ao movimento secreto das ondas.
Durmo, acordo, vem dos livros fechados
o cheiro escuro dos sargaços.
Neste quarto, noite adentro, percebe-se
a presença perturbadora do mar:
nas estantes, nos tapetes, nos móveis submersos.
Nas paredes lisas de cansaço.
Sou jogada no sono de um sonho a outro,
lançada entre corais, como um peixe
que dorme na ressaca.
Quando for preciso novamente
acordar para o dia,
o mar terá se afastado lentamente
e voltado a ocupar o lugar
onde o vejo
pela janela esquerda do quarto.

 

Ana Martins Marques

 

Giardino

Se il giardiniere abbandonasse il lavoro a metà
e stanco si sedesse su una sedia
e perdesse tutta la serata
sotto rose grasse che sono solo rose
e accecano di felicità
mentre il giardino
in se stesso
si contorce
estraendosi da dentro
il sesso intricato delle camelie
e la morte e la follia dei gigli
e la noia suburbana delle guaiave
preda di commozioni antiche
potrebbe sentirsi un poeta
che guarda la poesia
che non sa finire.

 

 

 

 

 

Barche di carta

Le poesie in genere sono fatte di parole
sulla carta
sarebbe meglio se fossero di stoffa
perché potrebbero prendere la pioggia
o di legno
perché sosterrebbero una casa
ma in genere sono fatte di parole
sulla carta
e per questo servono a poche cose
fra le quali non si trova
prendere la pioggia
o sostenere una casa.

Piegate su se stesse,
si lanciano nel mondo
con il coraggio suicida
delle barche di carta.

 

 

 

 

 

Mappa

Scelsi la città
– un punto scuro sulla mappa,
circondato di silenzio.
Nella città
c’è una casa che aspetta,
c’è un’estate che aspetta,
rossa e dolce.
Ci sono in città donne sconosciute,
ragazzi,
strade larghe e strette.
C’è un nome sulla mappa
che corrisponde alle donne
e ai ragazzi e alle strade.
C’è in città un ritmo
per gli avvenimenti,
un modo preciso
di fabbricare fatiche.
Nella piega della mappa –
a nord della città –
c’è un lago scuro, pesci,
asfalto, erba.
La città –
un punto sulla mappa –
è circondata dal silenzio.
Per questo
il mio occhio
straniero
l’ha scelta.

 

 

 

 

 

La casa

La casa sogna un giardino di rosai disordinati
sogna il legno la calce la siesta
sogna il vetro e sogna piccoli animali ostili
addormentati nelle canzoni
sogna se stessa e le stanze che non ci sono
di notte
quando né io né tu riusciamo a dormire
(perché l’amore è finito, e l’eccesso di parole
da dire
ha reso pesanti i nostri corpi
molto più pesanti di come erano
nel tempo in cui ancora si dacevano visita,
quando la tua bocca parlava nella mia
di luoghi che ci stavano aspettando,
che invecchiavano senza di noi)
la casa (tutto l’orrore dei mobili,
degli oggetti che abbiamo toccato,
delle lenzuola sporche dell’assenza del tuo corpo,
delle cose che hanno testimoniato
i giorni felici e gli altri)
sogna tempi vuoti
ancora senza di noi
o dopo di noi.

 

 

 

 

 

Rito

Come se la conoscessi a memoria
ripeto con le mani la curva della tua schiena
(il tuo corpo ti veste a meraviglia)

perlustro il tuo corpo fino a trovare
qualcosa che del mio corpo
non so

eppure ignoriamo
il nome delle cose che ci siamo scambiati

commossi dalla sofferenza dell’uccello
dal destino della seta
dal nostro stesso dolore
abbiamo eretto un altare per la notte
una notte per nulla

saliva, silenzio, sigarette

nessuno testimonierà
il rito.

 

 

 

 

 

Seta

È tanto difficile amare
in questo mondo imperfetto
è difficile dire qualcosa
che non sia un equivoco
è difficile trovare
il peso giusto
delle cose
conoscere la nostra dimensione
guardare certi insetti negli occhi
pensare con dolcezza
approfittare adeguatamente della luce
volere per l’uccello un destino di uccello,
per la seta, un destino di seta.

 

 

 

 

 

Come l’alpinista

Come l’alpinista ama il vuoto delle grandi altezze
e il palombaro ama il silenzio della profondità
e invidia nei pesci abissali
la mostruosità oscura della vita
come lo stenografo ama la velocità del senso
e il suo segreto
e il giardiniere il ritardo aspro delle orchidee
come il fotografo ama il chiaro e lo scuro del mondo
e il pugile ama l’incontro
della precisione e della forza
come il tipografo ama il peso muto delle lettere
e il filologo il nido caldo delle parole
e il grammatico lo splendore cieco delle eccezioni
e il sarto la resistenza bianca del lino
e la manicure il colore giusto
e il tintore il colore giusto
come il biologo ama la molteplicità muta del mondo
e il marinaio am il regime del cielo e delle acque,
che echeggia la decisione ripetuta di partire,
come il tatuatore ama la pagina imperfetta della pelle
e il gioielliere ama che le perle sappiano
dell’attesa
così io vorrei amarti
se non fosse per questo tumulto, e questa irrisione
e la paura.

 

 

 

 

 

Mani

Una lavora più dell’altra.
Si spartiscono il peso degli anelli.
Una non ha mai imparato a scrivere.
Perciò l’altra si è fatta più silenziosa,
più ferma, più abituata agli addii.
In alcuni gesti entrano insieme
nella stessa coreografia
Come quando bisogna contare qualcosa
più di cinque.
Accettano le macchie degli anni
come zitelle
che invecchiano insieme.

 

 

 

 

 

Mattino

Questa è la frutta del mattino –
la sua carne chiara.
Questa è l’ora pericolosa:
un altro giorno si offre al sole
per ammalarsi o cantare,
il mondo è nuovo ma gli occhi sono antichi,
hanno imparato a riconoscere prima
d’imparare a guardare.
Questa è la notte del mattino,
la notte più alta della notte
quella che ha disegnato il pensiero
del corpo che offro
allo specchio della luce, alla solitudine e al caffè.

 

 

 

 

 

Notte dentro

Legato a una barca nella notte
il sonno si china su se stesso,
reso al movimento segreto delle onde.
Dormo, mi sveglio, viene dai libri chiusi
l’odore scuro dei sargassi.
In questa stanza, notte dentro, si percepisce
la presenza inquietante del mare:
nelle mensole, nei tappeti, nei mobili sommersi.
Nelle pareti lisce di stanchezza.
Sono scagliata in sonno da un sogno all’altro,
gettata tra coralli, come un pesce
che dorme nella risacca.
Quando ci si dovrà nuovamente
svegliare per il giorno,
il mare si sarà ritirato lentamente
e sarà tornato a occupare il luogo
dove lo vedo
attraverso la finestra a sinistra della stanza.

 

Traduzione di Chiara De Luca

Ana Martins Marques, da A vida submarina
Editora Scriptum, Belo Horizonte 2009

L’edizione italiana è in preparazione per Edizioni Kolibris

Photo by Rodrigo Valente

Ana Martins Marques nasceu em 1977 no Brasil, em Belo Horizonte, onde vive. É formada em letras e doutora em literatura comparada. Estreou em 2009, com o livro de poemas A vida submarina, e publicou ainda Da arte das armadilhas, O livro das semelhanças, Duas janelas (em parceria com Marcos Siscar) e Como se fosse a casa (em parceria com Eduardo Jorge). Recebeu vários prêmios, entre os quais o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional e o terceiro lugar do Prêmio Oceanos.

Photo by Rodrigo Valente

Ana Martins Marques è nata nel 1977 a Belo Horizonte, Brasile. Si è laureata in Lettere all’Università Federale di Minas Gerais, dove ha conseguito un dottorato in letterature Comparate. Ha esordito nel 2009 con A vida submarina [La vita sottomarina], cui sono seguiti Da arte das armadilhas, O livro das semelhanças, Duas janelas (in collaborazione con Marcos Siscar) e Como se fosse a casa (in collaborazione con Eduardo Jorge). Ha ricevuto numerosi prestigiosi riconoscimenti, tra i quali il Premio della Fundação Biblioteca Nacional, e si è classificata terza al Prêmio Oceanos.

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2 comments

    1. irisnews Reply

      grandi immersioni per palombari!

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