Facebook

Michele Nigro, Pomeriggi perduti/Tardes perdidas

Seleção e tradução por João Luís Barreto Guimarães

Spade cilene

a Pablo Neruda

Cadono le parole
ingiallite come foglie
su carte d’erba,
sotto i colpi di autunni
dittatori, scrivono pagine
a un canto generale.
Non fu vano
il loro stare al cielo
a raccogliere luce
per l’eterno dire.

Non restarono mute
le foglie cadute
di Neruda assassinato,
come le spade taglienti
di un poeta fugitivo
brillavano pericolose
nella vigliacca notte
della libertà.

 

 

 

 

 

Opere sparse nel tempo

Sentire il riverbero
di trascorse energie
tocco di antichi
entusiasmi sulle cose
il loro effetto fuori moda.

Le mani stanche di madre
che curavano i lembi
di famiglie ormai disperse
non lavorano più d’ago
per un domani incerto.

Nuove cuciture
su stoffe consunte
come passaggi d’epoca
segnati da assenze.

In silenzio, da padre a figlio
mirando l’infinito di oggi
da laiche trappe
si eredita il da farsi.

 

 

 

 

 

Poesia triviale di amore e morte

Mi condusse nel bosco della fidúcia
e abusò della mia benevolenza,
per ore
senza dire una parola
raccontò tutto del suo ego
e me lo mostrò,
con colpi ritmati di piacere
strofinando la mia schiena nuda
sulla corteccia del nostro
talamo fogliato.

A mo’ di anello
con la fascetta rossa
dell’ultimo Partagás
intorno al dito raggrinzito
da umidi connubi solitari
le chiesi di unirsi a me
sul baratro di un bucolico caos.

Bifolco vuol dire
due volte folk
ed eravate coppia impopolare
di verderame e stanchezza.

C’è gente che
è vestita bene
solo da morta,
e allora lei morì
per vedersi bella
dal cielo.
L’eleganza nella bara
di castagno voyeur
testimone legnoso del loro
giovanile amplesso
fece dimenticare
l’indegno barcollio da birra
tornando di sera, ormai vecchi
da terre lavorate bestemmiando
irrigate con lacrime di pelle
e le risate in vita
dell’intero paese.

 

 

 

 

 

Rosabella*

Ardono solitari i fuochi poveri
nutriti da legni infantili,
oggetti sfasciati dal tempo
e da arroganti novità
rassegnati al disuso
si rendono utili bruciando
di malinconia invernale
fino all’ultima fiamma.

Crepitanti memorie
faville dal passato
scene e voci senza ritorno,
un vecchio lettino
orfano di bambini
uno scaffale tarlato
un tavolo testimone
di gioiosi convivi
una finestra senza cielo
una poltrona
stanca di poltrire.

Solo le parti in ferro
resistono al fuoco,
una vite slegnata, qualche molla mollata
un chiodo fisso, un bullone non più bullo.
Sono i ricordi
duri a morire,

la nostalgia li preserva
da fiamme e ruggine.

* Lo slittino di marca “Rosabella” appartenuto a Charles Foster Kane nel film Quarto potere (Citizen Kane).

 

 

 

 

 

Come seppellire i morti a gravità zero

T’adoperi con la vanga del tempo
a ricoprire fatti sfumati
e dolorosi echi di cose andate,
ma la terra aliena dell’irrisolto
non si adagia
compatta e reverente
intorno alle visitate ossa
per mancanza di gravità.

Sepolture indiane
alla luce del sole,
corpi esposti al vento
cosmico
è il consumarsi lieve
degli affanni carnali
senza marmi sacri,
giudicati dalle intemperie.

Pulviscolo cellulare
disperso al tramonto
nell’aria serena dell’infinito,
non nascondi più, esasperato esteta
le spoglie al futuro.

Michele Nigro

 

Espadas chilenas

para Pablo Neruda

Caem as palavras
amareladas como folhas
sobre papéis de erva,
sob os golpes de Outonos
ditadores, escrevem páginas
para um canto geral.
Não foi em vão
o seu estar no céu
reunindo luzes
para o dizer eterno.

Não ficaram mudas
as folhas caídas
de Neruda assassinado,
tal as espadas afiadas
de um poeta fugitivo
brilhando perigosas
na cobarde noite
da liberdade.

 

 

 

 

 

Trabalhos espalhados pelo tempo

Sentir a reverberação
da energia acabadas
o toque dos antigos
o entusiasmo pelas coisas
o seu efeito fora de moda.

As mãos cansadas da mãe
que cuidavam dos bordos tecidos
de famílias agora dispersas
não trabalham mais com a agulha
para um futuro incerto.

Novas costuras
em tecidos gastos
como passagens de época
marcadas pela ausência.

Em silêncio, de pai para filho
olhando o infinito de hoje
de laicas vestes trapistas
herda-se o como fazer.

 

 

 

 

 

Poesia trivial de amor e morte

Levou-me para a floresta da confiança
e abusou da minha benevolência,
por horas
sem dizer uma palavra
contou tudo sobre o seu ego
e mostrou-mo,
com golpes ritmados de prazer
esfregando as minhas costas nuas
na casca do nosso
tálamo foliado.

Como um anel
com a faixa vermelha
do último Partagás
em redor do dedo enrugado
por húmidas uniões solitárias
pedia-lhe para se unir a mim
no abismo de um bucólico caos.

Bifolco quer dizer bifolco es campónio
duas vezes folk
e éreis um casal impopular
de verdete e cansaço.

Há gente que
é bem vestida
apenas quando morre,
por isso ela morreu
para se ver bonita
do céu.
A elegância no caixão
de castanho voyeur
seu testemunho lenhoso
abraço jovem
faz esquecer
o indigno cambalear da cerveja
tornando à noite, agora velhos
de terras cultivadas amaldiçoando
irrigadas por lágrimas na pele
e risos na vida
do país inteiro.

 

 

 

 

 

Rosabella *

Ardem solitários e pobres incêndios
alimentados por bosques infantis,
objectos arruinados pelo tempo
e por notícias arrogantes
renunciados ao desuso
tornam-se úteis ardendo
de melancolia invernal
até a última chama.

Memórias crepitantes
faíscas do passado
cenas e vozes sem retorno,
um velho berço
órfão de crianças
uma prateleira roída
uma mesa testemunhando
os alegres convívios
uma janela sem céu
uma poltrona
cansada de relaxar.

Apenas as peças de ferro
resistem ao fogo,
um parafuso solto, algumas molas lassas
um prego fixo, um parafuso não mais rufião.
São as memórias
difíceis de morrer,

a nostalgia preserva-os
das chamas e da ferrugem.

* O trenó da marca “Rosabella”, pertenceu a Charles Foster Kane no filme Citizen Kane.

 

 

 

 

 

Como enterrar os mortos em gravidade zero

Trabalhas com a pá do tempo
para redescobrir factos matizados
e dolorosas ecos de coisas passadas,
mas a terra estranha dos não resolvidos
não se reclina
compacta e reverente
em redor dos ossos visitados
por falta de gravidade.

Enterros indianos
à luz do dia,
corpos expostos ao vento
cósmico
é a consumação leve
das preocupações carnais
sem mármores sagradas,
julgadas pelas intempéries.

Poeira celular
desaparecida ao pôr-do-sol
no ar sereno do infinito,
não escondes mais, esteta desesperado
o despojos do futuro.

Tradução: João Luís Barreto Guimarães

Michele Nigro, da Pomeriggi perduti
Edizioni Kolibris 2019

Michele Nigro, nato nel 1971 in provincia di Napoli, vive a Battipaglia (Sa) dal 1978. Si diletta nella scrittura di racconti, poesie, brevi saggi, articoli per giornali e riviste. Ha diretto la rivista letteraria “Nugae – scritti autografi” fino al 2009. Nel 2016 è uscita la sua prima raccolta poetica – che ama definire “raccolta di formazione” – intitolata Nessuno nasce pulito (edizioni nugae 2.0). Le 5 poesie qui presentate, tradotte da Chiara De Luca e João Luís Barreto Guimarães, sono tratte da Pomeriggi Perduti, pubblicato nel 2019 da Edizioni Kolibris.

Michele Nigro nasceu em 1971, na província de Nápoles. Vive em Battipaglia desde 1978. Escreve poemas, contos, ensaios e artigos para jornais e revistas. Dirigiu a revista literária Nugae – scritti autografi até 2009. Em 2016, lançou a sua primeira colecção de poemas intitulada Ninguém nasce limpo. Os 5 poemas que precedem, traduzidos por Chiara De Luca e João Luís Barreto Guimarães, foram extraídos do seu livro de 2019, Pomeriggi perduti, editado pelas Edizioni Kolibris, de Ferrara.

No widget added yet.

1 comment

  1. Michele Nigro Reply

    Grazie a Joao e Chiara per la loro traduzione dei miei versi…

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Follow Us

Get the latest posts delivered to your mailbox:

%d bloggers like this: